sábado, 18 de janeiro de 2014

Novos Nichos

Doze doses de calma por vias venosas
Não me trariam de volta o sono que perdi
Nove novas histórias e canções de ninar
Não me trariam de volta a paz que não vivi
Seis sextas passadas sob tetos caseiros
Não me fariam o exemplo que nunca emiti
Mas isso são só números, jamais contabilizados
E meu mundo sofre sob minhas decisões.
Minhas mãos jazem, imersas em sangue,
Imersas em lama e petróleo roubado
Imensas tenazes que fraturam falanges
Que fazem fissuras profundas na carne.
Sete septos com nichos recém desocupados
Ocos senão por ecos, ocos senão por asco,
Refazem minha crença, minha vã religião
O templo de ossos, capela em meu crânio,
Com porcos poetas cantando à capela,
Trazendo a palavra de falsos profetas,
Traindo a palavra dos mestres de branco.
Já não há mais hóstias em meus erlenmeyers
Já não há sinais nas saídas de emergência
Já não há mais gases fluindo emergentes
Em copos imundos lavados de pó
Levados ao pó por total desmazelo.
As vozes que cantam, trazendo a palavra,
Deixando a ciência de Deus dominar,
Convertem aborígenes e vão, alienados,
Voltando ao seu disco pra enfim flutuar
Girando ao contrário, são subliminares
Mensagens gravadas na carne vermelha.
Distraído por textos que nascem da alma,
Nos vis labirintos já desabitados,
Cinzentas paredes não param quietas
E fazem minha sina enfim retornar.
Trazida por Hermes, correndo em meus dedos,
Volta a podre e doce sensação de negar
Negar o que fui, sem mesmo querer,
Negar o que sou, o que não escolhi.
Não mais sou poeta, não mais descendente
De tantos arautos que não vi cantar
Que não vi catar, que não vi contar
Numéricas fomes de apenas deitar
Apenas dormir, mas nunca sonhar
Em rearranjar sob alcunhas e versos
Tristezas e amores e dores e nadas
Reais, irreais, racionais e insanas.
Doze doses de calma por vias venosas
Não me trariam de volta o sono que perdi
Nove novas histórias e canções de ninar
Não me trariam de volta a paz que não vivi
Seis sextas passadas sob tetos caseiros
Não me fariam o exemplo que nunca emiti
Mas isso são só números, jamais contabilizados
Por nenhum poeta que nunca ouvi cantar.
                                                                                              Um Fauno (18/01/14)

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