quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Serpentário

Hoje é quarta-feira
Não teve jornal...
Hoje, por mera curiosidade, eu leria meu horóscopo
Pra descobrir a força que os astros exercem sobre mim
Neste dia.
Pra descobrir quais oportunidades estão prestes a bater em minha porta.
Pra comprar, pra vender, pra sorrir, pra viver
Pra olhar, pra temer, pra lembrar, pra esquecer...
Pra crer num dia cheio de especulações
E esquecer as tribulações de meus dias comuns,
E, em minha sorte premeditada,
Descobrir se tenho chances com ela...
Aquela cujo signo é diferente do meu,
Cuja afinidade é definida por astros,
Cuja convivência dependerá do movimento das marés,
Do tempo, da oportunidade...
Ela, que crê que estaremos juntos para além dos laços das sorte,
Por força forjada pelo infinito espaço.
Aquela que ainda não conheço, mas que está prestes a cruzar minha frente
Em meu destino.
Mas eu não acredito no horóscopo.
Tampouco no destino.
                                                                                              Um Fauno (13/11/14)

sábado, 10 de maio de 2014

Todo Dia

"E o mundo prossegue girando, como se não houvesse nada ou ninguém que pudesse fazer com que ele mude de ideia. E a vida prossegue fluindo, como se não houvesse força grande o suficiente que a fizesse mudar de ideia. E os seres seguem ignorantes da ciência besta que é o fluir do tempo natural, como se nunca tivessem visto nada disso acontecendo anteriormente. E os compassos que compõem os dias que passam apenas servem de referência para aqueles que nunca haviam ouvido melodia alguma antes do próprio nascer... É natural que estejamos estupefatos perante as tantas futilidades que compõem o nosso próprio cotidiano. É normal que nos sintamos um tanto quanto ignorantes perante tantas informações mastigadas, fatigadas e vomitadas em nossos pratos todo santo dia e todo dia profano. E todo dia nos parecerá profano enquanto não adquirirmos consciência de que somos tão deuses quanto os deuses que vemos e quanto aqueles velhos deuses os quais somos obrigados a crer... E Deus segue seus caprichos, como um milionário entediado, como se não houvesse nada ou ninguém que pudesse fazer com que ele mude de ideia, como se não houvesse força grande o suficiente que o fizesse mudar de ideia, como se nunca houvesse ouvido melodia alguma antes de seu próprio nascer, como se já estivesse cansado de ver tudo isso acontecendo anteriormente, e sempre, e sempre, e sempre... E todo dia nós vivemos como se fosse um novo dia, diferente de todos os outros, mas, quando pisamos em nossa própria sombra, quando bebemos da mesma fumaça, quando batemos nas pedras de nossos próprios becos, é como se estivéssemos sempre voltando ao passado, contestando a própria existência, inútil e fútil, cotidiana e aleatória, contada e descontada, vivida e não vivida, igual, profana, letal e incomparável." - C. J. Amorim (04/02/13)

sábado, 29 de março de 2014

Nos Medos da Mente

Brutal demasia de orgulho indistinto
Devora minha alma e me trava o momento
Da morte do espaço, um atroz movimento
Que houve de agir sem motivo ou instinto

A ébria inverdade, é a dor que pressinto
Na ceia dos pobres, do caos, do tormento
Essa lama escura da qual me alimento
Não dura ou sacia esse orgulho faminto

Feroz, descontente com toda essa orgia
Com podre banquete, com tanta euforia,
Devora a si mesmo com gana imprudente

Devora a luxúria, a fome e o horror
A vida, a loucura, a fúria e o torpor
Que guarda em si mesmo, nos medos da mente

                                                                                              Um Fauno (06/10/09)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Prece aos Tolos

Rogo à força pela qual minhas pernas andam
Rogo à força pela qual pernas se movem
À causa a qual os meus tendões contraem
Ao ácido que em meus músculos corre
Aos meus pulmões, meus haustos infernais,
Ao éter e à idade, desiguais.
Rogo a deuses, águas, fogos, nortes,
À voz de estrelas que o mundo contrai
Ao dízimo, pecado da existência,
Ao ébrio e vil percurso da ciência,
A Órion, ao Deus-Noite, medo eterno,
Aos meus antepassados, precedentes,
À carne que me faz portar meus dentes.
Ao jugo de uma mão sobre os finais,
Pois que tribulações por mim passaram
Mas resisti porque não me mudaram.
E minha sorte não governará.
E minha morte o tempo não trará.
E por meu mundo a paz não reinará.

                                                                                              Um Fauno (22/01/14)

sábado, 18 de janeiro de 2014

Novos Nichos

Doze doses de calma por vias venosas
Não me trariam de volta o sono que perdi
Nove novas histórias e canções de ninar
Não me trariam de volta a paz que não vivi
Seis sextas passadas sob tetos caseiros
Não me fariam o exemplo que nunca emiti
Mas isso são só números, jamais contabilizados
E meu mundo sofre sob minhas decisões.
Minhas mãos jazem, imersas em sangue,
Imersas em lama e petróleo roubado
Imensas tenazes que fraturam falanges
Que fazem fissuras profundas na carne.
Sete septos com nichos recém desocupados
Ocos senão por ecos, ocos senão por asco,
Refazem minha crença, minha vã religião
O templo de ossos, capela em meu crânio,
Com porcos poetas cantando à capela,
Trazendo a palavra de falsos profetas,
Traindo a palavra dos mestres de branco.
Já não há mais hóstias em meus erlenmeyers
Já não há sinais nas saídas de emergência
Já não há mais gases fluindo emergentes
Em copos imundos lavados de pó
Levados ao pó por total desmazelo.
As vozes que cantam, trazendo a palavra,
Deixando a ciência de Deus dominar,
Convertem aborígenes e vão, alienados,
Voltando ao seu disco pra enfim flutuar
Girando ao contrário, são subliminares
Mensagens gravadas na carne vermelha.
Distraído por textos que nascem da alma,
Nos vis labirintos já desabitados,
Cinzentas paredes não param quietas
E fazem minha sina enfim retornar.
Trazida por Hermes, correndo em meus dedos,
Volta a podre e doce sensação de negar
Negar o que fui, sem mesmo querer,
Negar o que sou, o que não escolhi.
Não mais sou poeta, não mais descendente
De tantos arautos que não vi cantar
Que não vi catar, que não vi contar
Numéricas fomes de apenas deitar
Apenas dormir, mas nunca sonhar
Em rearranjar sob alcunhas e versos
Tristezas e amores e dores e nadas
Reais, irreais, racionais e insanas.
Doze doses de calma por vias venosas
Não me trariam de volta o sono que perdi
Nove novas histórias e canções de ninar
Não me trariam de volta a paz que não vivi
Seis sextas passadas sob tetos caseiros
Não me fariam o exemplo que nunca emiti
Mas isso são só números, jamais contabilizados
Por nenhum poeta que nunca ouvi cantar.
                                                                                              Um Fauno (18/01/14)