segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Muito Além de Meras Memórias

“Sabe mãe, quando o pai me ligou hoje de manhã, eu mal pude acreditar no que ele estava dizendo. Eu congelei por um momento, que foi quebrado pelo escorrer das lágrimas em meu rosto. Minha vida toda passou diante de meus olhos, pois uma parte de mim morreu naquele instante e eu pude relembrar vários momentos que tive em sua presença.
Eu me vi de novo caindo da bicicleta e ralando o joelho, chorando sem parar, e seu sorriso quando veio me acudir, ensinando pra mim que aquilo era normal e que não seria a única vez que aconteceria. Eu te vi na plateia, na apresentação de teatro da escola, com lágrimas de orgulho nos olhos por ver seu filhinho dando o melhor de si em cima daquele palco. Eu fazia só uma merda de árvore e mesmo assim você me disse que eu era a árvore mais frondosa daquele jardim. Eu nem sabia o que significava ‘frondosa’, mas eu sabia que aquilo era um elogio.
Me desculpe pelo palavrão logo acima, você sempre me mandou maneirar no linguajar. Mas mãe, falar palavrões pode ter sido a coisa menos grave que eu já fiz e que você tinha conhecimento. Lembro-me perfeitamente do meu primeiro porre e de como lavei a roupa de cama limpinha com os restos do hambúrguer que eu tinha jantado. Você me fez lavar tudo quando eu acordei e passar pano no chão do quarto pra ver se disfarçava aquele cheiro nojento que tinha ficado. Eu fiquei puto demais naquele dia, mas sabia que tinha feito por merecer.
Mãe, eu cabulava aula na 8ª série pra ir jogar bola com os moleques na quadra da rua de baixo. Eu tirava a camiseta do uniforme da escola e jogava bastante água no corpo pra disfarçar o cheiro de suor, mas o cheiro transparecia toda vez que você era chamada na escola pras reuniões de pais e mestres. Eu sempre esperava você voltar, já com a braguilha aberta, pronto pra abaixar as calças e tomar aquela surra, mas você nunca me bateu...
Aos 16 anos eu fumei meu primeiro cigarro e aos 18 eu comecei a fumar maconha. Eu nunca te disse isso, mas duvido que você nunca tenha suspeitado. Não me orgulho disso e me orgulho menos ainda de ter ocultado tudo isso de você, mas agora eu vejo que isso nem importa mais, diante de tantas outras coisas...
Eu cresci! Tomei minhas próprias decisões e hoje sou um homem feito! Tenho minha própria casa, meu emprego, meus carros e minhas manias. Não bebo mais, não fumo mais e muito menos me drogo, mas ainda sinto um buraco em minha vida por até hoje não ter constituído família. Não sei por que, mas desde pequeno nunca fui ligado à família...
Você se lembra do quanto eu brigava quando você dizia que a gente ia almoçar na vó? Você demorava meia hora arrumando meu cabelo e me obrigando a vestir a minha roupa mais bonita e, depois de tanta birra, eu chegava lá, comia e ia brincar com os filhos dos vizinhos, com um baita sorriso. Eu quase não ficava junto de vocês, e hoje, quando o pai me ligou e me disse que você tinha morrido, eu não soube como reagir.
Eu que nunca fui de sentir saudades, que não fazia mais que uma visita por ano, que malemá mandava um cartão no fim do ano desejando ‘Boas Festas’, vejo que perdi muito tempo me preocupando em ganhar dinheiro e deixando de viver ao lado de quem realmente me importava.
Eu gostaria que você pudesse ler essa carta com seus próprios olhos, ou que ao menos pudesse ouvi-la de minha própria boca, mas não sei nem se realmente a levarei amanhã no seu enterro. Sinto que é minha obrigação falar alguma coisa, pois afinal, é do enterro de minha mãe que estamos falando, mas não sei se quero compartilhar com toda a família essas memórias tão íntimas. Penso em guardá-las comigo até que eu tenha coragem de soltá-las ao mundo e, enfim, te deixar com um pouco mais de mim, pra muito além de um epitáfio.” – C. J. Amorim (21/10/13)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Fútil e Vago

Corto os pulsos e deixo o vermelho fluir
Para banhar meus olhos com calor e fechá-los,
Tentado esquecer, assim,
Tudo que um dia eu senti por você.

Corto os laços e deixo o desejo surgir
Para falar com mortos e tocá-los,
Tentando esquecer, assim,
Que um dia estive à sua mercê.

Olho, cego de desejo por fugir
Para enxergar o óbvio de novo
Tentando trazer pra mim
Tudo aquilo que um dia perdi

Morro, simples, pra te ver sorrir
Pra te deixar sentir de novo,
Tentando traduzir, assim,
A razão pela qual morri.
                                                                                              Um Fauno (07/11/11)