domingo, 1 de dezembro de 2013

Momento

É muito em muito pouco
É pouco em muito tempo
É tanto desalento

É desalinho, efeito
É linho em canto intenso
E canto em limpo vento

É senso em teu momento
É penso, tenso, imenso
E penso sem bom senso

É volta em torno, denso
O morno contratempo
Dispenso

                                                                                              Um Fauno (03/03/12)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Qual Minotauro

Heroicamente havia eu de morrer
Pois que lutei querendo liberdade
Viver, quem sabe, e não passar vontade
De estar entre os que não queriam ver

Que eu era igual, mesmo não sendo um ser
Igual perante as leis dessa igualdade
Um híbrido animal, fatal verdade
Deixado em solidão, pra apodrecer

Perante os outros, fera, criatura,
Aberração funesta, de alma escura,
Trancado a esperar, quem sabe, a sorte

De arrebentar os muros deste crivo
E me vingar de Deus, pois me fez vivo
E me vingar de Deus, pois me fez forte.

                                                                                              Um Fauno (25/09/09)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Muito Além de Meras Memórias

“Sabe mãe, quando o pai me ligou hoje de manhã, eu mal pude acreditar no que ele estava dizendo. Eu congelei por um momento, que foi quebrado pelo escorrer das lágrimas em meu rosto. Minha vida toda passou diante de meus olhos, pois uma parte de mim morreu naquele instante e eu pude relembrar vários momentos que tive em sua presença.
Eu me vi de novo caindo da bicicleta e ralando o joelho, chorando sem parar, e seu sorriso quando veio me acudir, ensinando pra mim que aquilo era normal e que não seria a única vez que aconteceria. Eu te vi na plateia, na apresentação de teatro da escola, com lágrimas de orgulho nos olhos por ver seu filhinho dando o melhor de si em cima daquele palco. Eu fazia só uma merda de árvore e mesmo assim você me disse que eu era a árvore mais frondosa daquele jardim. Eu nem sabia o que significava ‘frondosa’, mas eu sabia que aquilo era um elogio.
Me desculpe pelo palavrão logo acima, você sempre me mandou maneirar no linguajar. Mas mãe, falar palavrões pode ter sido a coisa menos grave que eu já fiz e que você tinha conhecimento. Lembro-me perfeitamente do meu primeiro porre e de como lavei a roupa de cama limpinha com os restos do hambúrguer que eu tinha jantado. Você me fez lavar tudo quando eu acordei e passar pano no chão do quarto pra ver se disfarçava aquele cheiro nojento que tinha ficado. Eu fiquei puto demais naquele dia, mas sabia que tinha feito por merecer.
Mãe, eu cabulava aula na 8ª série pra ir jogar bola com os moleques na quadra da rua de baixo. Eu tirava a camiseta do uniforme da escola e jogava bastante água no corpo pra disfarçar o cheiro de suor, mas o cheiro transparecia toda vez que você era chamada na escola pras reuniões de pais e mestres. Eu sempre esperava você voltar, já com a braguilha aberta, pronto pra abaixar as calças e tomar aquela surra, mas você nunca me bateu...
Aos 16 anos eu fumei meu primeiro cigarro e aos 18 eu comecei a fumar maconha. Eu nunca te disse isso, mas duvido que você nunca tenha suspeitado. Não me orgulho disso e me orgulho menos ainda de ter ocultado tudo isso de você, mas agora eu vejo que isso nem importa mais, diante de tantas outras coisas...
Eu cresci! Tomei minhas próprias decisões e hoje sou um homem feito! Tenho minha própria casa, meu emprego, meus carros e minhas manias. Não bebo mais, não fumo mais e muito menos me drogo, mas ainda sinto um buraco em minha vida por até hoje não ter constituído família. Não sei por que, mas desde pequeno nunca fui ligado à família...
Você se lembra do quanto eu brigava quando você dizia que a gente ia almoçar na vó? Você demorava meia hora arrumando meu cabelo e me obrigando a vestir a minha roupa mais bonita e, depois de tanta birra, eu chegava lá, comia e ia brincar com os filhos dos vizinhos, com um baita sorriso. Eu quase não ficava junto de vocês, e hoje, quando o pai me ligou e me disse que você tinha morrido, eu não soube como reagir.
Eu que nunca fui de sentir saudades, que não fazia mais que uma visita por ano, que malemá mandava um cartão no fim do ano desejando ‘Boas Festas’, vejo que perdi muito tempo me preocupando em ganhar dinheiro e deixando de viver ao lado de quem realmente me importava.
Eu gostaria que você pudesse ler essa carta com seus próprios olhos, ou que ao menos pudesse ouvi-la de minha própria boca, mas não sei nem se realmente a levarei amanhã no seu enterro. Sinto que é minha obrigação falar alguma coisa, pois afinal, é do enterro de minha mãe que estamos falando, mas não sei se quero compartilhar com toda a família essas memórias tão íntimas. Penso em guardá-las comigo até que eu tenha coragem de soltá-las ao mundo e, enfim, te deixar com um pouco mais de mim, pra muito além de um epitáfio.” – C. J. Amorim (21/10/13)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Fútil e Vago

Corto os pulsos e deixo o vermelho fluir
Para banhar meus olhos com calor e fechá-los,
Tentado esquecer, assim,
Tudo que um dia eu senti por você.

Corto os laços e deixo o desejo surgir
Para falar com mortos e tocá-los,
Tentando esquecer, assim,
Que um dia estive à sua mercê.

Olho, cego de desejo por fugir
Para enxergar o óbvio de novo
Tentando trazer pra mim
Tudo aquilo que um dia perdi

Morro, simples, pra te ver sorrir
Pra te deixar sentir de novo,
Tentando traduzir, assim,
A razão pela qual morri.
                                                                                              Um Fauno (07/11/11)

domingo, 29 de setembro de 2013

Por um Mero Segundo

Queria eu que olhasses pra mim
Com a vista turva e os olhos baços, ébria de vontade
Da vontade que tenho de termos um ao outro
Por um mero segundo, com os lábios colados,
E apenas...

Tu me bastas.
É a única coisa que quero envolta por mim
Um fruto da insana ilusão que permeia minhas meninges
O ar e o escafandro que me aprisionam num aquário de desejos
E apenas...

Queria que estivesses assim como eu,
Iludida por um nada que surgiu.
O vácuo de nossas existências completo por um e outro,
Simbioticamente unidos como Hermafrodita
E apenas...

Em cada esquina espero esbarrar em tua pessoa
E num constrangimento de só nos conhecermos previamente,
Agirmos como crianças e cumprimentarmo-nos com um aceno
Perguntar o que fazemos por aqui
E apenas...

E numa tarde chuvosa, como essa em que exponho estes meros devaneios,
Sair na névoa doce de um amor inexistente
Em ter-te não só em meus pobres pensamentos,
Por uma vida inteira ou por um dia
E apenas.
                                                                                              Um Fauno (29/09/13)

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Boa Noite

“Agora que os cigarros acabaram, o que fica em minha boca é só o gosto do passado. O gosto mal passado de acetona, fumaça e problemas baratos. Agora que a garrafa quebrou, o que se vai é mais que um vinho tinto, é a secura da tinta que pinta os trilhos de um desagrado futuro. A cabeça ainda gira em torno de si mesma, organizando ideias que insistem em passar quando deveriam apenas esperar por suas vezes, como numa fila de banco. Por sua vez, os olhos pesam e me deixam mais próximo ao fim das desilusões. Agora que a noite acabou, os que restam de pé preparam-se para adormecer tranquilos, enquanto para os que sentam-se esperando o dia nascer, a vida passa como num carrossel desgovernado.
Agora que o mundo acabou, o que nos resta é esperar pelo arrebatamento, e Deus, em seus sonhos hipnóticos, nem imagina o quão próximos estamos dele enquanto esperamos por um próximo trago. A confusão que se instala em nossos sistemas nos faz pensar sobre o que seria correto para incitar-nos a viver e, entre essas e outras, vivenciamos experiências únicas, que no fim da noite são deixadas onde estão, como estátuas paradas no tempo, como fotografias presas em postes, anunciando os desaparecidos e a recompensa por quem decidir perturbá-los.
Agora que os fantasmas são relembrados, sentados em volta de mesas, saboreando a cera das velas acesas para espantar os males que nos solidificam e crucificam, o que dizemos faz com que giremos em torno de memórias e polaroides envelhecidas. As imagens que retornam em nossas mentes, quando a sinestesia toma conta de nossas frases, nos tornam um pouco mais velhos a cada dia. Segundos se tornam minutos e milésimos ao mesmo tempo, e o mundo para de girar para assistir ao baque surdo de nossas mentes permeando a realidade.
Agora que os cigarros acabaram, o que me resta é lembrar de que ainda tenho algo pra tragar, e que minhas noites não são mais tão intragáveis quanto aquelas em que eu vivia sem a lembrança das vidas que tive enquanto a maioria dormia.” – C. J. Amorim (05/08/13)