quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Útero Moderno

Ando cansado dessas cenas medíocres,
Desses roteiros infantis e grotescos
Dessas vitrines enfeitadas com mil arabescos
Desses enredos nada profissionais
Dessas tramas deveras sensacionais
Do sensacionalismo barato.
Bastam lágrimas para despertar minha ira
Lágrimas falsas que imitam dor e alegria
Bastam glórias para atenuar dissabores
Flores mortas em tumbas de ditadores
Cheirando a plástico falso, a petróleo subjugado,
Cheirando a hipocrisia, mentira e esquizofrenia,
Cheirando à podridão.
Diante de médias medidas,
Sem qualquer extremo ou delimitação,
A fúria brota e sangra de meus olhos
Sob a alcunha de lágrimas gélidas
Mas que não tocam o chão, mas que não tocam ninguém,
Pois nenhuma lágrima, provinda de um homem real,
Pode tocar a alma de um falso imortal,
Pois nenhum sentimento, no mínimo brutal,
Pode tocar um coração passageiro.
O pensamento voa livre, flui por entre meus dedos,
Se torna poesia, ritmo, fábula, canção,
Mas a arte, por mais medíocre que seja,
Não vive por mais que horas neste mundo devastado
E o silêncio se torna o canto das multidões
E a catástrofe torna-se o cotidiano das legiões
E a modernidade se torna passado em segundos ilegais
Em segundos sinápticos, em segundos cardíacos,
Em segundos banais.
Por isso peço que me mandem de volta
Que me mandem de volta para o útero materno
Onde dançam os sonhos destinados ao viver
Onde a pureza dos fetos ignora o “não-nascer”
E o morrer dos desejos, nas mãos dos normais.
Onde são sábios os infantes, ignorantes do sentir,
Os filhos da impávida fome de ser,
Pois fome primordial, sentimos só por não ter
Consciência da avidez que as mandíbulas famintas
Devoram em horas, só pra se divertir.
Mande-me de volta para minha terra natal,
Para o tempo em que as horas eram só divisões
E não vidas e vidas jogadas, deixadas ao léu.
                                                                                              Um Fauno (06/12/12)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Fênix

“Ânsia, é tudo o que sinto. A maldita vontade de vomitar tudo de negro que ainda existe em mim. A negra vontade de despejar pro mundo toda a maldita vontade de extinguir seres que em mim ainda vivem. A maldita vontade de me extinguir. Mas, há tempos eu já estava extinto e não tinha percebido...
A vida pulsa em minhas veias novamente e é ela que me faz sentir essa ânsia por vomitar tudo o que me matou e que fez eu me ocultar por algo que jurei que me faria viver, que eu acreditava ser uma vida verdadeira. Vestido com essa capa quase etérea que me disfarçou por tanto tempo, eu já havia me esquecido do tudo de ruim que em meu ser habitava. A vida outra vez pulsa em meu denso coração, no vazio oco dos átrios que retumbam com um grito solitário e insólito, o urro da desolação.
A desolação ainda habita meu ser, a vontade gigante de extinguir o que de humano ainda existe em mim, o que de humano me foi imposto e o que de humano me foi depositado. Não há mais espaço para humanidade na Planície Gélida. Não há mais espaço para humanidade nesse renegado coração e apenas peço que não mais exijam humanidade de alguém que, por opção, escolheu deixar de ser humano.
O que andei vivendo me fez esquecer de minha própria solidão, da solidão que nos acompanha em todos os momentos, da solidão que nos mantêm vivos, da solidão que nos faz pensar e querer continuar sozinhos. Em tantas ocasiões preguei minhas palavras, palavras de solidão, minhas verdades, cruéis, reais e em mim sempre presentes e não consegui crer nelas. Não consegui crer em mim mesmo. É incrível como conseguimos aniquilar nós mesmos por outrem, por quem a gente quer manter por perto. Mas ter alguém tão próximo, não faz parte da solidão.
Somos uma matilha de lobos única, uma matilha de lobos solitários cujas mães abandonaram para viverem num inferno gélido, acompanhados por gêmeos tão imundos quantos nós mesmos. A diferença é que alguns animais percebem a realidade enquanto outros desenham com carvão em pedras que serão extintas pelo tempo. A diferença é que nem todos são lobos. Alguns apenas pensam que são, mas não passam de homúnculos manipuláveis, que temem o inverno e o inferno.
E eu, sou novamente um lobo. Eu tinha me ocultado por uma diáfana capa em forma de gente, tinha me preocupado em ser mais um verme sedento por calor, ser mais um amontoado ignorante de sinapses imperfeitas, em busca de uma meta para alcançar. Meu maior pecado foi abandonar o Caos por uma ilusão que me fizesse sentir o doce sabor do carvão que desenha torres distorcidas em pedras de sal e sabão.
Mas a ilusão é como um vinho: te deixa alegre, te faz sorrir, te faz sentir como só mais um numa multidão enlouquecida, que clama por mais sanidade, por mais liberdade e por mais prisão, mas, cuja ressaca é a realidade. Quando você estiver sozinho, na intimidade de suas próprias vísceras, você vai regurgitar realidade sobre toda essa ilusão e verá que o púrpura turvo não é a cor do manto que você veste.
O mundo é negro. Tem cores em todos os lugares e é por isso que é um lugar negro. É o ermo dos sentimentos, a ruína dos pensamentos, o fim da glória e o manicômio dos sãos. O mundo é o lugar dos injustos, dos impuros e dos insolentes. O mundo é o lar das abjeções e é por isso que sou parte do mundo. Quando se instala um filtro belo sobre um mundo negro, o mundo corromperá seu filtro, mas quando seu filtro está sujo pelo seu próprio sangue, seu filtro corrompe o mundo e, quando se corrompe o mundo é que se consegue habitá-lo. E meu mundo foi corrompido.
Quando eu tinha realmente a certeza de que nada mais poderia corromper meu próprio mundo, surgiu uma nova cor, uma cor que eu nunca antes havia visto e eu, tentei corromper essa cor, torná-la apenas uma parte a mais em meu mundo. Mas o contrário aconteceu e eu fui corrompido e, por um breve momento de minha existência, eu inexisti, em prol de algo que eu considerava sagrado em meu próprio mundo. Mas não mais.
Novamente, o lobo corre solto, nos Campos Cortantes da Insanidade e não há força que possa pará-lo que não sua própria força. Não há força maior que sua própria força, não há vontade maior do que a sua própria vontade, não há nada mais sagrado que seu próprio ser, que a vontade de ver suas patas pousando novamente em um solo conhecido, durante uma corrida incessante pelo fim que ele próprio deseja, de ter o vento passando por sua face como algo tão volátil quanto sua própria existência, de ser outra vez o dominante de um mundo tão vil e cruel quanto ele mesmo.
E não haverá mais ânsia por autopiedade, não haverá mais açoites que cortam carne, ossos e alma como se fosse tudo a mesma coisa, não haverá mais quedas e submissões por algo que não a si mesmo e, não haverá mais dor dentro de seu peito lacerado. O pior caminho para um homem trilhar, é o que ele mesmo escolheu trilhar, mas este é o que lhe trará mais glória e satisfação no fim e este é o meu caminho.” – C. J. Amorim (04/12/12)