quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sépia

“Com a mão em volta do copo pousado sobre a mesa, ele encarava o revólver quase vazio e o demônio que se sentava à sua frente. ‘Atire’, dizia o demônio, mas ele queria primeiro terminar o que estava bebendo. Minutos a mais ou a menos, não mudariam seu destino.
A foto, encharcada de sangue, mostrava a razão de tudo aquilo: o passado. Ele cria que poderia vivê-lo de novo, mas criaturas como ele nunca mereceram algo tão piedoso quanto um passado tão brando quanto aquele que vivera há pouco. Mas era tarde. O demônio havia voltado pra cobrar o tributo oferecido. A sentença seria executada.
Mas nunca houvera demônio tão piedoso quanto aquele que se sentava diante dele. Ele entendia a necessidade que ele tinha de terminar pelo menos aquele copo, e, logo se serviu também daquele uísque barato. Acenderam cigarros, trocaram algumas palavras, mas nunca tocando o assunto pelo qual estavam outra vez reunidos. Não até aquele momento...
O demônio não pode deixar de notar a fotografia. Pegou-a, e, com um sorriso de desdém nos lábios disse: ‘foi essa a razão de tanto alarde? Foi por isto que você pediu que eu te abandonasse? Foi por isso que você quis viver?’. Gargalhou enquanto se servia de mais um copo.
Os olhos do sentenciado vaguearam por um momento, passando da fotografia para o demônio e deles para o copo e o revólver. Era, era por aquilo que ele tinha desejado viver. Ele mesmo já não sabia se tinha valido a pena. Ponderava sobre o quanto tinha se esforçado, sobre o quanto tinha mudado, sobre o quanto havia feito... Ponderava sobre o quanto havia se sacrificado.
Sabia que não tinha sido em vão. Sentia-se bem relembrando de tudo aquilo, do quão satisfatório lhe havia sido arrancar risos e sorrisos daquela que jazia estática na pequena fotografia. Ele se sentia amado quando estava ao lado dela, sentia-se bem, sentia-se completo e, talvez este tenha sido seu grande erro. Criaturas como ele nunca mereceram algo tão piedoso quanto uma presença tão doce quanto aquela que tivera há pouco.
Ele se sentia mal pelo muito que havia feito. Sentia-se mal por nunca ter sido o bastante. Ele sentia-se novamente aquilo que há muito tinha deixado de ser. Criaturas como ele nunca deveriam tentar mudar sua própria natureza. Ele sabia que uma hora ou outra tudo iria terminar, só não sabia que teria que ser daquela forma e agora, o demônio havia voltado, mais cedo do que ele esperava encontrá-lo. Recebeu-o como a um irmão, como se fosse parte de si mesmo, visto que realmente era.
Seu passado mais remoto havia retornado, fazendo parecer o recente como um sonho desperto, um desejo que se tem, um devaneio. Seu passado mais remoto havia retornado e se tornado novamente parte de si mesmo. A fúria animalesca, o ódio irrefreável, a solidão infindável. No fundo de um copo de uísque, conseguia se ver novamente, afogando-se em realidade, naufragando em sobriedade. No fundo de um copo, cheio de si, ele enxergou o que deveria fazer.
Virou a última dose e aceitou seu destino. O fado era um fardo que não poderia dividir com ninguém. Só ele e sua própria solidão poderiam suportar tamanha desolação. Levantou-se, pegou o revólver e verificou o tambor: uma única bala. Pegou a fotografia e deixou que uma lágrima embaçasse seu sorriso. Posicionou a arma na melhor têmpora que pode encontrar: a direita... Do demônio.
O demônio sorriu satisfeito por saber que o contrato estava selado. Aceitou a bala com prazer. O clique do gatilho estalando tão próximo de seu ouvido o fez gargalhar ensandecido. Era isso o que ele queria: findar com o pacto. Nem mesmo ele aguentava mais viver imerso em tanto desprezo. Nem mesmo ele, o desprezo em carne e osso, conseguia viver imerso em tanto desprezo. Ali, ao lado de quem ele realmente era, sentia-se completo novamente. Com uma bala ricocheteando por sua caixa craniana, sentia-se vivo novamente.
Ele se levantou, apertou a mão de seu algoz e lhe agradeceu, com a mais sincera satisfação. Vestiu o fraque e saiu pela porta da frente, com o sangue lhe escorrendo pela face. Acendeu um cigarro e desceu a rua, assoviando uma canção qualquer que talvez fizesse sentido apenas para ele, e para aquele a quem tinha visitado.
O homem retornou para dentro da casa, retirou a garrafa agora vazia e os copos da mesa e estendeu por sobre ela uma toalha estampada de manchas de sangue, molho e lágrimas. Guardou o revólver numa gaveta e a foto no bolso do paletó. Tirou um cigarro do maço, tragou três vezes e suspirou um nome. Sorriu, chorou, terminou seu cigarro. Alimentou-se dos restos do jantar passado e deixou os pratos sobre a mesa. Era novamente um consigo mesmo. Era, novamente, um com o seu passado. Tinha novamente domínio sobre si mesmo. Tinha, novamente, o demônio como a si mesmo.
Sentiu suas vísceras clamando por novos ares, por sangue pulsante, por vidas, mortes e sinas. Sentiu-se pronto para encarar o mundo novamente. Vestiu a melhor máscara que pode forjar, acendeu outro cigarro e desceu a rua, assoviando uma canção qualquer que talvez fizesse sentido apenas para ele e para o demônio que tinha dentro de si.” – C. J. Amorim (29/11/12)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Névoas de um Quintal Escuro

Eu deito, em meu leito sentindo-me perfeito,
Sentindo-me completo, sentindo-me desfeito...
Desperto, observo as aranhas no teto
E as teias que tecem com meus pensamentos.
A névoa da mente exterioriza-se em vozes
Saídas das têmporas, ouvidos e narinas,
Saídas dos bueiros e becos dos meus próprios neurônios
E formam o quadro que Morfeu espera que eu veja.
O artista sente o quadro ao invés de vê-lo.
O autor sangra o quadro ao invés de pintá-lo.
O homem singra a vida ao invés de atravessá-la.
O homem sente a mente como mente pra si mesmo.
O poeta exterioriza a voz que lhe consome o sono,
A voz que lhe arrebata os sonhos, a voz da qual nunca foi dono,
A voz de seu “sub-inconsciente”, aquela que lhe devolve a vida,
Aquela que quão mais bela, mais faz sangrar as feridas,
A que ele um dia quis não deixar de ouvir...
Ah, a contradição!
É um poço de aflição no qual sempre se sente de tudo!
É força renovada para enfrentar-se o mundo!
É o querer falar mesmo mantendo-se mudo!
É perfeita a situação no poço da contradição
Quando lhe falta pureza e lhe transborda a aflição
É perfeito o ser humano, por ser poço, profundo e vazio,
Que quanto mais se olha pra dentro, mais parece ser louco e frio.
Mais parece manter-se sozinho,
Distante, louco, fraco e escorregadio...
É força, o que todos pensam ser fraqueza...
A névoa adentra novamente meu ser,
Voltando para dentro de seu criador,
O lar de quem nunca viveu, é o lar de quem um dia quer viver
E essa névoa é o que me faz querer ser
Ser novo e de novo o que nunca sempre fui!
Ser o dito, o desdito e o contradito,
O caos que governa meus membros,
Meus ossos, juntas, sentimentos e pensamentos,
Que me faz estrangular-me a mim mesmo, apenas para sufocar a ideia
De que um dia estive livre de mim.
Oh, navegador indecente!
Conduz direto às docas os botes de minha mente!
Oh, navegador indomável,
Guia com sabedoria meu pensamento insondável!
Pois que eu sou meu próprio guia
E jamais teria me deixado abandonar
Por motivo fútil ou reles, qualquer tratamento vulgar,
Apenas por mim mesmo, pra tentar me ludibriar
E, agora, envolto nas névoas de meu próprio ser,
Nos mares revoltos que um dia pude conceber,
Consigo finalmente ver que nunca deveria ter me movido
Saído do local onde sempre estive escondido
E abandonado a origem de meus próprios pesadelos!
O meu lar é minha mente, por debaixo de meus fracos cabelos
O meu lar é minha mente, meu quintal, meu cerebelo.
                                                                                              Um Fauno (20/11/12)