quinta-feira, 21 de junho de 2012

Cortinas

“’A fumaça do cigarro é tão mais bonita na chuva, não é mesmo?’ disse ela, e jogou a bituca ainda acesa em direção à imensidão. Não esperou resposta. Conservou um sorriso leve e singelo nos lábios e voltou o olhar a noite que os rodeava, com os joelhos abraçados junto ao queixo. Calou-se por alguns minutos, que, para ele, pareceram uma eternidade.
Ele não estava preparado para a pergunta. Ainda estava pensando em como fora parar ali. Fora pego totalmente desprevenido, o que não era novidade, visto que ficava o tempo todo pensando no tempo e em como não tinha tempo para mais nada que não a própria rotina, e este era um dia totalmente avesso aos que estava acostumado. Não sabia quase nada sobre a garota que estava ao seu lado, apenas o nome, o que fazia da vida e algumas informações não muito pertinentes.
Trabalhavam na mesma empresa, em cargos diferentes, porém, no mesmo escritório. Ele, atrás de sua escrivaninha, sempre arrumada, digna de louvor. Ela, atrás dos papéis que sempre se acumulavam em sua mesa, dos relatórios atrasados e desorganizados. Ele sempre pensava em como ela ainda não havia sido mandada embora diante de tantos descuidos. Muitas vezes se pegava pensando nisso, mas, logo despertava e voltava ao seu trabalho. Hoje, por qualquer que fosse o motivo, não conseguia se concentrar. Hoje, o dia parecia conspirar contra ele.
Foi na saída do expediente que ela havia vindo falar com ele. Pediu o isqueiro emprestado dizendo que o dela não estava funcionando. ‘Deve ter entrado água’ disse ela, justificando o pedido. Era bem possível. Já fazia três dias que chovia incessantemente e ele sequer havia visto algum sinal de que ela possuísse um guarda-chuva ou o que quer que fosse que servisse para proteger da torrente constante que assolava esses dias.
Ele odiava a chuva. Dizia que não servia para nada que não fosse atrapalhar suas idas e vindas. Quando alguém lhe dizia que a chuva trazia vida ou que ajudava a manter a vida viva, ele logo retrucava falando sobre enchentes e destruição. A chuva só servia para fazê-lo se atrasar ou até mesmo impossibilitá-lo de ir aos seus compromissos. Não se lembrava de um momento feliz que tivesse passado em um dia chuvoso.
Ela acendeu o cigarro e devolveu o isqueiro com um sorriso de agradecimento. Estavam indo para o mesmo lado, então, ele decidiu chamá-la para um café. Entraram numa lanchonete e trocaram algumas palavras. Há tempos que ele não tinha uma tarde tão agradável, mesmo com a chuva o perturbando. Pagaram, saíram e continuaram a caminhar. O céu cinza estava um pouco mais brando que o habitual, mais semelhante ao tom da diáfana cortina de fumaça que vez ou outra saía de um escapamento ou de uma chaminé de fábrica, logo, ela o chamou para dar uma volta.
Andaram sem rumo, mas com um rumo determinado. Ele sabia que nada estava totalmente nas mãos do acaso. Ela devia ter planos para aquela caminhada. Já devia ser por volta do por do sol quando começou a chover novamente. Correram para debaixo de uma árvore, numa colina um pouco distante da cidade. Do topo dessa colina, podia se ver toda a cidade, tão longe e, ao mesmo tempo, tão perto e ele nem mesmo se lembrava se um dia já havia estado naquele lugar. Perguntou-se quanto tempo fazia que estavam andando, pois parecia que eles estavam tão distantes da realidade mas que tão pouco tempo havia se passado.
A chuva estava forte e as folhas da árvore acima deles quase não conseguia segurar a água que banhava seus corpos ainda engravatados. Algum tempo já havia se passado (‘uma meia hora’, pensou ele) e a chuva não diminuía. Ela sentou-se na terra úmida e ele acompanhou o movimento. Ela tirou um cigarro do maço e o próprio isqueiro. Tentou acender e logo se lembrou que este não estava funcionando. Ele prontamente ofereceu o seu e tirou de seu próprio maço um cigarro pra si. Anoitecia e a chuva começava a abrandar.
Não trocaram nenhuma palavra enquanto fumavam, nem olhares e assim permaneceram, cada um imerso em sua própria bolha de fumaça, em seu próprio mundo, até que ela perguntou: ’A fumaça do cigarro é tão mais bonita na chuva, não é mesmo?’. Ele não estava preparado para a pergunta, então, continuou em silêncio.
Ele geralmente não pensava nas coisas pequenas tanto que até mesmo esquecia-se de que coisas pequenas existiam. Ele pensava apenas no grandioso, pensava como o concreto, que marcha incessantemente rumo ao progresso. Resolveu dar uma folga a si mesmo e parou para pensar na frase solta no ar. Olhou para ela e sentiu-se totalmente hipnotizado.
Queria saber o que se passava dentro de sua mente. Deliciava-se com as hipóteses que perpassavam seus devaneios. Ela conservava um sorriso delicado e estreitava os olhos como que querendo enxergar por trás do fino véu de água que os cercava apenas aquilo que ela desejava ver, o mundo todo que vivia imerso em seus pensamentos. Ele queria ver o mundo todo que habitava os seus pensamentos. Ele queria vê-la desenhando com palavras, tudo aquilo que ele nunca conseguira entender. Ele queria apenas vê-la.
A curva perfeita de seu rosto, o desalinho dos cabelos desgrenhados, as pequenas manchas de água e terra que adornavam suas roupas, lhe pareciam estar em perfeita sintonia com tudo aquilo que um dia ele sonhara para si. Lembrou-se de quando não tinha preocupações, vícios ou compromissos, lembrou-se do quanto era feliz sendo ele mesmo em todos os momentos, sem precisar vestir a máscara plástica e calcificada do bom moço, direito e temente a Deus e às leis morais e éticas. Percebeu o quão diferente era dela e desejou-a por todo o resto de seu tempo.
Pensou novamente no que havia acabado de pensar, em como a queria, em como a desejava e percebeu que estava outra vez se apaixonando. Há tempos já não se sentia assim. Havia prometido a si mesmo que nunca mais se sentiria assim. Olhou para o cigarro entre os dedos, tragou-o pela última vez, e, atirou-o contra uma poça que se formava ali perto, desejando que essa ‘paixão’ morresse como morrem brasas acesas ao entrar em contato com poças solitárias, cheias de frieza e daquilo que nenhum homem deseja mais.
A chuva continuava, agora mais fraca do que anteriormente. Olhou uma última vez para a garota, apanhou o guarda-chuva que jazia esquecido ao seu lado, limpou a terra da roupa e levantou-se. Ela olhou para ele, como que desperta de um transe profundo, totalmente diferente de como estivera há tão pouco tempo. Parecia assustada com o movimento, brusco demais se comparado com o estupor de estátua no qual ela estivera por todo este tempo.
‘Preciso ir’ disse ele e virou-se de costas para ela. Olhou para a chuva e para a noite, acendeu mais um cigarro, soprou a fumaça e percebeu o quão mais bonita ela fica sob a chuva e saiu numa caminhada lenta e tortuosa. Não abriu o guarda-chuva, ao invés disso, desejou que a chuva lhe abençoasse com uma pneumonia ou qualquer outra coisa que o impedisse de ver o rosto de sua ‘amada’ por pelo menos um dia, pensando que um amanhã solitário o faria esquecer tudo o que um hoje inesperado havia lhe reservado. Quem sabe assim, teria enfim um motivo para amar a chuva.” – C. J. Amorim (21/06/12)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Despertar

“Na caminhada escutava meu hino, que reverberava por todas as juntas de meu ser, despertando aquele que nunca fora totalmente adormecido. O hino prosseguia em seus acordes, tornando mais forte a chance de ser pleno novamente, quando, em seu interlúdio, ouço uma voz, sibilando qualquer coisa que no momento não constava em meus interesses, que entorpece outra vez os sentidos da fera interior. E desci alguns degraus de minha ascensão ao completo.
Segue a melodia, segue a mudança nos sentidos. A despedida tornara o elo entro homem e fera mais forte e as barreiras entre eles, mais diáfanas. A aura monstruosa já tomava forma definida, ampliando a capacidade do hospedeiro de tal forma que não mais se percebia qualquer sombra de que um dia houve fraqueza em suas carnes. O lobo estava livre. Formava em torno de mim uma aura pulsante de vigor e fúria, acentuada em seu brando tom prateado. Os olhos fixos, a máscara posta, era outra vez aquilo que o mundo enojava. Era o ser nefasto que todos aqueles não admitem morar em si. Eu era o ódio.
Termina o hino, segue a orquestra, com uma música que me dizia que tudo poderia ser diferente, mas que isso não deveria ser revelado, e o totem plasmático dissipou-se em parte. Com meia máscara posta, segui em minha caminhada e a melodia muda e me diz que eu realmente não pertenço a este lugar. Que tentando me adequar a este, tornei-me próximo pra ficar distante, consciente de tudo o que ocorre, longe de tudo ao redor. Havia renegado-me de mim mesmo, para poder estar novamente consciente. E era outra vez só carcaça, sem força vital transpassando os poros.
Durante a jornada, a memória de terras ermas, da neve caindo por sobre sua pelagem, o sangue brotando das têmporas dilaceradas. A decepção, a raiva, o ódio por si mesmo, atacando-o por todos os lados. Frases hediondas e pensamentos repulsivos, perpassando sua mente anestesiada. A imagem da libertação dos campos cortantes surgindo viva em seu horizonte.
E só quando iniciada a peça final que a força voltou. Lutando para se libertar, lutando para voltar à vida. Duas entidades se conflitando para tornar-se uma só, uma comunhão de força, frieza e vontade. E, findo o conflito, tornou-se um, aquilo que queria desde o princípio, conflitando apenas com o externo, com o que não lhe pertencia. Ainda...” – C. J. Amorim (15/06/12)