terça-feira, 24 de abril de 2012

Fome

“Em volta da fogueira quase morta, as sombras dançavam. Já não eram mais as mesmas de quando eles haviam se perdido. Eram menores e já haviam diminuído muito em número também. Do grupo de sobreviventes haviam restado apenas dois, e nenhum alimento. Este, já havia terminado há cinco dias. Estavam famintos e alimentavam-se apenas dos poucos frutos que encontravam pelo caminho. Nas armas que carregavam, seis balas apenas, três para cada um. Se não fossem as chuvas constantes já teriam morrido de sede. Por sorte, tinham encontrado um lugar seguro e longe das tempestades violentas. Por sorte, haviam encontrado alguns galhos não tão molhados. Por sorte, estavam vivos.
Tentaram, em vão, reanimar a fraca fogueira e a fraca vontade de viver. As barbas que cresciam incessantemente mostravam há quanto tempo já estavam naquele inferno. Os olhos já não mais brilhavam, estavam gélidos, parecendo dois buracos escavados entre os ossos aparentes de dois mortos-vivos. As unhas imundas de sangue e lama denotavam o desespero em encontrar algo que os pudesse salvar. Os calos de seus membros mostravam o quando correram e rastejaram, fugindo dos perigos que o ambiente inóspito guardava. A pele flácida, marcada de sol e cheia de feridas, denunciava o quanto sofreram nas mãos de um destino cruel e inesperado. Apenas a coragem e a vontade de voltar para seus lares sobreviviam dentro de seus corações esperançosos.
Um relâmpago clareou o interior do abrigo e o primeiro homem pegou seu cantil. Estava vazio. Levantou-se, cambaleante, e caminhou em direção à chuva. O segundo estudava a cena com calma, uma calma insana, proveniente dos dias de exílio. Já não pronunciava uma palavra há aproximadamente dez dias. O desaparecimento e a morte de seus companheiros e a presença de um homem surdo tornavam desnecessários os diálogos. Sim, o primeiro homem era surdo.
Observava enquanto o pobre homem enchia seu cantil e saciava sua sede, quando outro relâmpago iluminou a caverna e fez brilhar uma superfície metálica: o tambor de seu revólver. Já havia até se esquecido que trazia uma arma consigo, depois de tantos dias sem ver sequer um animal que pudesse abater. Olhou para o revólver, tentado a pegá-lo e acabar de vez com tanto sofrimento, com tanta fome. A loucura o levava a querer ceifar a vida de seu companheiro para que pudesse ter suas necessidades carnais saciadas. Era a fome quem falava por ele.
Jamais faria isso em condições normais. Tinha horror a sangue e violência. Abominava a idéia de comer um de seus iguais, mas a fome gritava mais alto que a razão. Esperou até ter a certeza de que seu companheiro não estava vendo e caminhou até a arma. Poderia fazer o barulho que quisesse, pois sabia que não seria ouvido. Foi cauteloso, tomando sempre o cuidado de manter-se longe das chamas, para que sua sombra não o denunciasse. O que ele não sabia é que o primeiro homem era uma farsa.
Não era surdo, muito pelo contrário, ouvia muito bem. Ouviu os movimentos de seu companheiro, mas estava mais preocupado em saciar sua sede. Fingiu-se de surdo, pois estava fazendo um experimento sobre o comportamento humano na presença de situações não tão comuns. Pareceu-lhe uma boa idéia, pois poderia saber o que os outros pensavam sem ter a necessidade de demonstrar isso. Sempre fora um bom ator e conseguiu simular a surdez com louvor.
O acidente quase botara tudo a perder, mas, o grupo de sobreviventes lhe deu esperanças de prosseguir com o experimento. Ao contrário do que pensava, a situação adversa só fez aumentar o sucesso da experiência, porém, com a constante diminuição do grupo já não havia mais razões para continuar. Sequer sabia se sairia vivo desta empreitada para contar ao mundo os resultados de seu experimento. Diversas vezes havia pensado em parar, mas temia a reação dos outros ao descobrir que haviam sido enganados.
Diversas vezes havia pensado em se matar, mas não o fazia para que seu último companheiro não ficasse sozinho. Ambos estavam fracos e caminhando em direção à morte certa, mas sabia que seria mais fácil lutar se permanecessem juntos. Enquanto pensava em tudo isso, notou um súbito silêncio no interior do abrigo. O clique seco de uma arma sendo engatilhada atrás de sua cabeça eliminou seus últimos devaneios e pensamentos.
Virou-se rapidamente e notou a surpresa no rosto esquelético de seu companheiro. Deu um sorriso de desdém e pronunciou algumas palavras quase inaudíveis, com dificuldade, devido ao tempo que não utilizava a fala. Estranhamente, o outro homem apenas ouvia.
Não esperou reação. Partiu pra cima do homem armado, apenas com seu cantil em mãos. Sabia que não adiantaria muita coisa, mas ainda assim, era melhor que lutar com as mãos nuas. Pulou sobre o homem atônito, para evitar que ele tentasse alguma coisa. Sua fome de viver, ainda que pouca, era grande demais para que se deixasse vencer tão facilmente.
Lutaram durante alguns minutos, um tentando sobrepujar a vontade do outro. Rolaram pelo chão da caverna desferindo golpes para todos os lados, quase cegos, pois a fogueira há muito já havia se apagado, restando apenas algumas brasas incandescentes. A todo custo, um tentava vencer o outro para ter seus desejos saciados. Enquanto um lutava para sobreviver e não enfrentar a solidão, o outro pensava apenas em saciar seus desejos primais. O desespero em vencer trouxera nova força e vigor aos dois homens.
Um barulho estranho, vindo de fora da cena, fez com que os dois ficassem outra vez estáticos. Separaram-se rapidamente buscando esconder-se nas sombras da caverna. O primeiro homem correu para seu revólver, pronto para se defender de qualquer ameaça, fosse proveniente de um animal selvagem ou do companheiro louco de fome e, arrastou-se de volta à escuridão.
Uma sombra disforme lançou-se sobre as brasas da fogueira morta, iluminada pelo clarão da tempestade. Trazia consigo outras três sombras, munidas de armas e lanternas. Eram homens, aparentemente mais sãos e preparados do que os habitantes da caverna. A luz das lâmpadas segou os dois exilados, desacostumados com qualquer coisa proveniente da civilização. As sombras avançaram para dentro do abrigo, buscando confortar os pobres homens.
Aliviados, largaram as armas e se deixaram cair ajoelhados, com lágrimas lavando seus rostos agradecidos. Estavam salvos.” – C. J. Amorim (17/11/11)

domingo, 15 de abril de 2012

Jogados

“Há sangue em suas mãos. Ainda há sangue em suas mãos e, não importa quantas vezes você as lave, suas mãos permanecerão manchadas com esse sangue. Há pecado em suas mãos...
Há pecados que não deveriam ser perdoados. Sujar as mãos com sangue desnecessário deveria ser um deles, mas, atualmente há uma necessidade por qualquer tipo de sangue. O sangue derramado vale mais que o que corre nas veias, o banho de sangue purifica mais que a água das fontes naturais, as folhas já nascem vermelhas devido às raízes coaguladas, os campos se enchem com sinais de morte e a insanidade se instala outra vez nos calmos campos.
O pós-guerra é uma realidade inacessível. Vivemos em caos, vivemos em morte e, mortos, sobrevivemos. Frios e calados, como sinceros cadáveres, mantemo-nos imunes. Não importa o quão grave seja a situação e o quão alto a voz da razão berre em nossas mentes, se mantermo-nos calados, sobreviveremos. O sangue dos quaisquer não nutre nossa sede de vingança. Esse sangue é nosso desconhecido, não é nosso sangue.
Choros e gemidos compõem nossas canções de ninar, ossos jamais enterrados alicerçam nossos lares, casacos de pele são tapetes de ‘bem-vindo’ nas portas da frente das mansões dos poderosos. Mesmo sentados em seus tronos de chumbo e balas, mesmo com suas mãos imaculadas, suas mãos estão manchadas de sangue. Ainda há sangue em suas mãos. Ainda há pecado...
Sob os comandos desses chefes de estado, marionetes fardadas continuam a rolar dados demolidores em tabuleiros onde não foram chamados para jogar. Não se respeitam as regras impostas para estes tabuleiros. Devido a isso, os invasores sempre vencem e, os mais variados jogos se tornam um mesmo jogo de ‘War’, com a diferença que não importa a cor de suas peças, seus principais objetivos são: destruir todos os exércitos inimigos, conquistar todos os territórios e, talvez o menos importante, manter-se vivo. Se tiver sorte, talvez você consiga sobrepujar teus inimigos mesmo em desvantagem, mas, a sorte há muito foi comprada pelos donos dos melhores brinquedos.
Os dados prosseguem rolando, jogando contra a sorte, jogando a sorte contra nós. Os mortos continuam caindo e a realidade se distorcendo, favorecendo os que não deveriam existir. Lágrimas brotam dos olhos dos soldados todas as vezes que são obrigados a matar incapazes. Lágrimas brotam dos olhos dos soldados todas as vezes que um irmão de armas morre. Lágrimas brotam dos olhos dos inocentes a todo instante, devido ao terror que os abraça com garras esfaceladoras. Lágrimas brotam dos céus, lavando os campos vermelhos e alimentando o bolor que nos corpos nasce. Mas lágrimas nada mudarão enquanto os olhos dos mascarados continuarem secos.
A máscara da ganância drena qualquer tipo de sentimento dos que um dia optaram por usá-la. A máscara do poder elimina qualquer tipo de temor que se poderia sentir por qualquer coisa menor, igual ou maior que seu usuário. A máscara da demência apaga todo tipo de lembrança do que um dia se foi antes de vestir essas máscaras. O manto da desilusão cobre o frágil ser, usuário de qualquer máscara ou subterfúgio. E, enquanto isso, longe de qualquer tipo de veste que não as que vestem as marionetes fardadas, os dados continuam rolando, a sorte correndo livre pelos campos imersos em sangue e os desejos sórdidos dos grandes aniquilando a realidade dos pequenos. Ainda há sangue em suas mãos, ainda há pecado em suas mãos e ainda há medo em seus olhos, mas as máscaras que eles usam nos impedem de vê-lo.” – C. J. Amorim (15/04/12)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sentimentos

Não eram, não morreram, me deixaram
Fugiram e correram, se esconderam
Promessas me fizeram, não voltaram
Mentiras absurdas, protegeram

Eternas reuniões que protelaram
Mostraram as desculpas que aprenderam
Pra enganar os que um dia amaram
Mas que, talvez, o amor nunca entenderam

Mostraram suas caras indistintas
E mascararam todos que não viam
As intenções por trás de seus olhares

As cores misturadas de suas tintas,
Que maquiavam todos que os seguiam,
Pintaram um vão sorriso em seus lugares.
                                                                                              Um Fauno (24/09/09)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Bueiros da Inexistência

“Trovões, trovões e trovões, mas não há raios para iluminar a face da morte. Apenas o barulho de algo que não deveria estar lá, mas que insiste em permanecer, mesmo não sendo bem vindo. Seus trovões não me assustam mais. Cresci e desapareci, desapareci de teus sonhos insanos. Não há mais razões que me atem a este lugar, não há mais razões que me atem a seus trovões. O alarde pode permanecer, sua fúria pode cortar o ar, mas eu não me importo mais com seus trovões... Não temo mais essa chuva.
Sempre odiei a chuva. Desde que me recordo, não houve ocasião em que as gotas me banhassem com graças e, esta chuva que ameaça cair, não mais me comoverá. Não acredito mais que a chuva trás renovação. Sempre que penso na chuva, penso em desgraça e solidão. Não mais tente me comover dizendo que a chuva lavará minhas mágoas para longe de mim. Ultimamente, quero ter minhas mágoas por perto, pois elas me fazem lembrar que não importa o quanto eu tente, sempre perderei minha razão por motivos fúteis e, toda vez que eu o fizer, sempre acabarei imerso em mágoas.
Trovões, trovões e mais trovões e, às vezes, luzes perpassando o céu. O céu, vermelho e cinzento, apenas me diz para ficar em casa, para ficar num lugar conhecido, me aprofundando dentro de mim. O céu, vermelho de sangue, diz que a guerra ainda não terminou. O céu, das cinzas dos cremados, diz que o fogo ainda queima pelos campos da insanidade. O céu, azul de doces sonhos, não mais surge em meio às desgraças. As luzes que percorrem o céu são apenas raios artificiais, vislumbres das explosões que banham minha mente com dor. Metralhadoras e baionetas de meus indesejados algozes, todos trajando a mesma farda e usando a mesma máscara, trajes que me recordo, do último dia em estive em sua presença.
Os trovões retumbavam pelo céu e dentro de nossos seres. Ecoavam em minha mente e não me deixavam ouvir meus pensamentos. A face da morte, oculta pelas sombras que os prédios desenhavam, tornava a tua face mais clara, destacando o desdém e a mentira que em seu sorriso tentavam se ocultar. Nos teus lábios, os dizeres de adeus, de que um dia voltaria para me cobrar tudo aquilo que nunca houve entre nós. Nos teus olhos, o seco e o opaco, mostrando que eu não deveria acreditar em nada que de tua boca saísse. No céu, a certeza da morte, caindo por sobre meus ombros, lavando meu corpo inerte, jogando-me contra mim mesmo, tentando fazer com que eu acreditasse que tudo estava errado, apenas por estar em um ambiente propício. E lá, entre o concreto dos sonhos quebrados, entre os desejos abandonados, eu fiquei, esperando que o sol saísse e iluminasse meu horizonte incerto, me dando esperanças de que a vida continua. E ele surgiu...
Surgiu, trazendo o vislumbre de que um dia eu teria a certeza de que tudo não passa de ilusão, de que tudo é efêmero e vão, de que tudo não passa de vilanias daqueles que querem nos ver rastejando, clamando por piedade, chamando os nomes dos que um dia nos fizeram ‘bem’. Neste dia, os trovões silenciarão, os relâmpagos iluminarão meu verdadeiro querer, os raios atacarão minha mente e apagarão minhas memórias, as gotas me banharão com a certeza de que não haverá mais dias de dor e, neste dia, e apenas neste dia, eu amarei a chuva. Neste dia, terei a certeza da morte, da morte das coisas que não mais necessito e de todos aqueles que tornam nossa vida mais fútil e desnecessária. E, quando o sol surgir por trás das nuvens ocas de lágrimas, somente as verdades permanecerão e todas as dores descerão pelos bueiros da inexistência.” – C. J. Amorim (09/04/12)

domingo, 1 de abril de 2012

Como Tantos Outros

"Com a corda no pescoço, ele suava frio. Ainda não havia entendido o porquê de estar ali, não havia razão aparente para tamanho alvoroço. Assustado com os gritos da multidão enfurecida, a única voz que ele conseguia distinguir era a do reverendo dizendo: ‘Arrependa-se e serás salvo!’, mas, não havia porque se arrepender. Não tinha feito nada de errado.
Olhou para baixo, para a portinhola prestes a ser aberta, a porta pela qual entraria e que por ela não sairia mais, pelo menos não vivo. Respirou fundo e procurou por um par de olhos na multidão, nenhum em específico, apenas um par de olhos. Um par de olhos cujo brilho da liberdade ainda ardesse. Um par de olhos que o olhasse com piedade e, ao mesmo tempo, coragem de continuar aquilo que ele não havia terminado.
Demorou-se nesse olhar por alguns minutos e, decepcionado, concluiu sua busca, sem resultados. Olhou para o carrasco, esperando por seu fim. E, enquanto esperava, percebeu que deveria estar ali. Deveria estar ali, pois quando tudo terminasse, quando tudo já estivesse esquecido, o mundo continuaria girando e, em uma de suas voltas, alguém perceberia que ele estava correto! E, talvez, esse alguém lutaria para realizar aquilo que ele não havia terminado.
Percebeu que a morte era o que ele realmente queria. Queria viver, mas não entre um povo que não quisesse abrir os olhos, não entre cegos e fanáticos. Entre os que acreditam em ideais impostos pelos mais fortes e dogmas incontestáveis. Era considerado um revolucionário apenas por ver além do que realmente as coisas aparentavam ser. Era, na verdade, o incorreto.
A sociedade na qual vivia viu uma necessidade de manter um padrão e ele não se adequava a este padrão. Precisava ser erradicado. Mas ele sabia que não fora sempre assim. Sabia que antes dele houveram muitos outros que lutaram e que também perderam. Sentiu-se culpado por não ter conseguido terminar o que tantos outros começaram e, ao mesmo tempo, sentiu-se esperançoso por alguém que o pudesse fazer. Sorriu.
Encarou mais uma vez a multidão e, sem pronunciar nenhuma palavra, fechou os olhos e esperou por seu fim. O retesar da corda provocou um espasmo em seu corpo, espasmo este que se espalhou por toda a multidão. Espasmo que tocou a alma do mais frio dos homens.
Diante a tal cena, os mais novos e mais fracos se sentiram amedrontados; os mais velhos, entediados; os mais fortes, orgulhosos e os mais inteligentes, conformados. Ele precisava ser erradicado.
Diante de tamanha violência desnecessária, o povo voltou para suas vidas cotidianas. Apenas os que viram seu sorriso souberam o que realmente deveriam fazer. Infelizmente, estes também já estavam mortos." - C. J. Amorim (04/11/11)