quarta-feira, 28 de março de 2012

Endereço

“Sabe, eu já morei nessa rua e comigo morava a inocência, mas isso já faz muito tempo... Eu era uma criança, sem noção do que poderia ser o mundo e das coisas que me esperavam a cada esquina, a cada passo dado. Naquele tempo, eu não dava nem um passo fora da linha, e nunca estava sozinho. Mamãe me acompanhava para qualquer lugar que eu fosse. Mamãe... Hoje em dia, raramente a chamo de ‘mãe’.
Passando nessa rua, me lembrei do quanto eu tive e do quanto eu desconhecia. Jamais havia encarado a rua como uma passagem de tempo, como uma transição vital. É, definitivamente eu cresci. Há nisso tudo, uma certa sinestesia teológica, onde me vejo senhor do tempo que na verdade flui por um lugar, e do espaço não modificado mas que modifica meus sentimentos. Não há mais necessidade de uma mãe ou de quem quer que seja para me mostrar certo e errado, bondoso e cruel. Hoje sei que o mais cruel pode ser o real bondoso e que certo e errado são apenas estados pelos quais estamos fadados a passar.
Essa rua ainda guarda os mesmos comércios, as mesmas pessoas, os mesmos sonhos, e esta chuva que cai apenas os lava e os leva bueiro abaixo. As gotas límpidas refletem a luz efêmera de um sol fraco, oculto pelas nuvens quase cinzas, dando um tom amarelado, quase sépia, nesta cena cotidiana. Esbarro com rostos conhecidos que talvez nem se lembrem de quem eu sou. Faz muito tempo que me mudei dessa rua e talvez essas pessoas nem mesmo se lembrem de que um dia eu estive ali.
Eu era muito tímido. Não que eu ainda não seja, mas eu nem colocava a cara para fora do portão. As únicas vezes que eu saia, eram para ir ao colégio ou na casa de algum colega, que não morava naquela rua. Nunca me dei com os vizinhos, e isso se dá até hoje. Procuro abrigo na distância e esqueço-me dos que me cercam com mais frequência. Nisso eu não mudei, continuo o mesmo tímido distante que eu sempre fora.
Essa rua me remete a um tempo em que não havia importância, onde não havia grandiosidade ou subjugação. Todos eram iguais e não havia receio ou preconceito. Dinheiro era só mais uma coisa reles que não interferia em nada. Eu nunca tinha pensado que uns tinham mais e outros não tinham nada. Felicidade não se comprava, era só sentar em frente à TV e deixar a programação passar por nossos olhos e se alojar em nossas cabeças, mas nem mesmo isso se passava dentro de minha mente... Eu era um garoto inteligente, mas não tinha essa noção corporal, sentimental e social que hoje tenho. É, definitivamente eu cresci.
Essa chuva que agora cai me faz pensar que antigamente sol e chuva não diferiam em nada para mim. Era tudo natural, não era causado por ciclos ou obedecia a uma lógica sistemática e condicional. No passado eu me importava somente com o agora... Quando a gente cresce, passa a viver para outros tempos, para outros alguéns. Esquecemo-nos de que ainda continuamos vivendo, de que somos as mesmas pessoas que éramos antes e, mudamos completamente, não só de endereço, mas de conduta e postura e deixamos que a nossa inocência morra e que os nossos sonhos sejam levados pela chuva.
Passando por esse tempo, vejo o quanto a rua me mudou e o quanto a chuva reflete a paisagem de forma distorcida. Passando por esta chuva, eu vejo o quanto o tempo me moldou e o quanto a rua se tornou uma memória esvaecida. Passando por essa rua, eu vejo quanto tempo eu estou perdendo, buscando na chuva uma resposta para meus sentimentos estremecidos. Passado meu, desta rua, trago apenas a lembrança de que minha morada real é o tempo, e que ando destruindo meu lar, buscando novos alicerces em outras pessoas e coisas.
A gente muda, o mundo muda e nos moldamos para que possamos ser um com as coisas que vivem ao nosso redor. Se deixarmos, poderemos ser tudo aquilo que outrora fomos, sem que para isso precisemos mudar a forma como pensamos ou agimos e apenas acrescentemos tudo aquilo que fomos um dia, ao nosso novo modo de estar. Podemos voltar aos nossos antigos endereços e encontrar fragmentos de nossos seres ainda habitando aqueles lugares. Podemos voltar aos nossos antigos endereços e nos tornarmos os novos endereços daqueles lugares...
Sabe, eu já morei nesta rua e, um dia, esta rua já morou em mim também...” – C. J. Amorim (28/03/12)

domingo, 25 de março de 2012

Ego

Compasso e destra, tudo em vão termina
Ao que não adianta ser prudente
Ignomínia pura é o que domina
O ocaso é fato e tudo é céu poente

Juntar discórdias cegas me anima
O tempo eterno já não me consome
Retiro a métrica e não perco a rima
Gerando discussão que chega e some.
Eu não estragaria um belo nome.

Agora, atenção quando isto lerdes
Manipulai teus sonhos inda verdes
O meu auto-retrato, em forma culta,
Revela minha mente quase adulta
Indica a vós, de tudo, esta razão.
Meu ser, minha verdadeira inspiração
                                                                                              Um Fauno (10/07/09)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Lembrança

Esses versos lhe dirão o que restou deste poeta
Após busca incessante de uma lancinante meta
Encontrada, enfim, e terminada sem saber

Da mulher que cobiçava, tive um dia a companhia
O contato de sua pele, minha máxima alegria
Me custou o coração, que cedi sem perceber

Suas lágrimas, tão doces, macularam minha alma
Penetraram em meu corpo com sua divina calma
E levaram-me à loucura sem sequer dizer o porquê.

Seus lábios, antes sérios, machucaram meu ego
Me fizeram emudecer, me tornaram cego
Me disseram o que eu pensava antes mesmo de saber

Seu rosto, traiçoeiro, dilacerou minha memória
Fez-me ver que o passado não é nada além de escória
E o futuro, para mim, é servir ao seu prazer

Seus olhos, profundos lagos, ofuscaram minha visão
Levaram minha luz, sentidos, orgulho e razão
O importante pra mim agora não é mais o meu viver

Você...
Você foi, e sempre será, minha divina perdição
Minha ânsia de ser e estar, meu destino, meu...

Perdão.
Não soube lhe dizer, o que aqui e agora expresso
E às origens da fala, espero por meu regresso
Meu olhar lhe diria o que sinto, se eu não fosse tão tolo

Já fui forte, mas agora, não passo de mera lembrança
E a lembrança de minha vida, já me deixa, já me cansa
Meu amor, razão e tristeza, são agora o fim de tudo

E no fim de meros versos, eu me torno passivo e mudo
Mudo perante a Deus, mudo perante a tudo
E o que eu queria era apenas
Te dizer o quanto te amo.
                                                                                              Um Fauno (07/03/08)

domingo, 18 de março de 2012

Desejo... Só Isso...

"Eu queria uma pessoa... mas não uma pessoa qualquer, aquela. Aquela que te deixa livre para ir e voltar. Aquela que não se importa com seus erros, pois vai ajudá-lo a repará-los junto. Aquela que, se você decidir saltar de cabeça num precipício, sem volta, ela vai tentar te convencer do contrário e, no final, vai saltar junto com você.
Eu queria uma pessoa igual e diferente de mim. Uma pessoa tão livre quanto eu, difícil de prender, difícil de lidar. Uma pessoa que me conquiste mais e mais a cada dia que passa, e que não se deixará ser conquistada tão facilmente. Uma pessoa que, quando eu conquistar, mudará totalmente, para que não me deixe morrer de tédio, que não me deixe ser o mesmo. Que não me deixe ser eu mesmo.
Uma pessoa como todas as outras, com horários e cotidianos. Que não tenha tempo pra nada a não ser para si mesma, pois eu não quero ser eu perto dessa pessoa... Eu quero ser ela e que ela seja eu. Então, dedicaríamos nosso tempo a nós mesmos e um ao outro.
Uma pessoa simples e ignorante, para que eu possa implantar coisas minhas em sua essência, mas não sem que haja uma certa reciprocidade. Quero tocar essa pessoa e que ela me toque também. Que consigamos ver um pouco de nós, um ao outro, dentro de nós mesmos. Eu quero me ver nessa pessoa e que ela se veja em mim também.
E quando findo o tempo de nós dois, tomaríamos novamente o rumo de nossas vidas, sem fúria, sem dor, sem briga, sem ressentimento, mas, com sentimento. Eu queria algo diferente, algo novo, inesperado, difícil de controlar... sem volta...
Aquela pessoa que vai rir quando você chorar, não porque gosta de ver sua ruína, mas para lembrar-te de que o riso mais belo provém do natural e, que te lembrará, assim, que chorar é tão natural quanto rir... Eu queria aquela pessoa que tira o fôlego, te deixa arfando quando colidem os corpos, quando aconchegam-se os lábios. Aquela pessoa que te destruirá, te mudará e não te deixará voltar atrás. Aquela que te marca com força. Uma marca que sempre estará no fundo de seu ser.
Eu queria mudança. Eu queria mudar, mas não mudar sozinho... Com aquela pessoa, sem mudar essa pessoa...
Eu queria a contradição, já que eu mesmo me contradigo. Eu queria outra vez o natural e que essa pessoa nunca me tivesse ocorrido. Eu queria o passado, pois nele eu era tranqüilo e não tinha necessidade desta pessoa. Eu queria esquecê-la e nunca tê-la desejado, pois não posso mais viver sem ela e sei que ela não mais pode viver sem mim. Eu queria nunca tê-la tocado. Eu queria deixá-la ir, sem que ela sinta necessidade de olhar pra trás e ver minhas lágrimas lavando os últimos resquícios de sua sombra, da sombra que segue atrás dela, sempre. Da sombra que ela deixou em mim.
Eu queria libertar-me da culpa e da vontade. Culpa de tê-la desejado, conseguido e arruinado o belo que um dia fomos, e da vontade de nunca ter feito nada disso, nunca realmente tê-la desejado com desejo, com vontade. Vontade de tê-la pura e simples novamente e diferente de tudo que havia desejado.
Uma pessoa que segure minha mão quando eu desejar saltar e que me impeça, me puxe de volta. Uma pessoa que chore quando me vir rindo. Uma pessoa que erre mais do que eu e que não me deixe corrigi-la. Diferente do que eu estou acostumado, diferente de tudo e todos. Diferente até mesmo de si mesma. Que se contradiga mais do que eu me contradisse... Mais do que eu me contradisse nesse texto vago, sentimental e superficial. Deste texto sem sentido, deste desejo sem sentido, deste sonho utópico em ter alguém, qualquer pessoa, somente para acabar com a solidão e o vazio de nunca ter tido ninguém. Realmente, eu queria você... Só você... Só isso." - C. J. Amorim (17/10/11)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Espelho

Eu não quero olhar em volta e ver que estou sozinho novamente
Eu não quero mais olhar em volta...
Eu não quero olhar em volta e ver que tudo que construí, ruiu
Eu não quero olhar em volta...
Eu não quero olhar em volta e ver apenas os fantasmas dos que me cercaram
Eu não quero olhar...

Eu não quero olhar pra dentro e ver o vazio que nasceu em meu peito
Eu não quero mais olhar pra dentro...
Eu não quero olhar pra dentro e ver que tudo que guardei em mim, fugiu
Eu não quero olhar pra dentro...
Eu não quero olhar pra dentro e ver buracos e marcas feitas por mim mesmo
Eu não quero olhar...

Eu não quero olhar pra frente e ver que não tenho mais um destino pra seguir
Eu não quero mais olhar pra frente...
Eu não quero olhar pra frente e encarar o espelho da realidade
Eu não quero olhar pra frente...
Eu não quero olhar pra frente e ver meu futuro copiando meu passado
Eu não quero olhar...

Eu não quero olhar pra cima e ver anjos escarrando em minha pessoa
Eu não quero olhar pra baixo e ver o chão se desfazendo sob meus pés
Eu não quero olhar pra trás e encarar meus piores erros
Eu não quero mais ver nada, pois tudo me lembra você
Eu não quero olhar seu rosto, pois ainda me vejo em seus olhos...
Eu não quero olhar...
Eu quero olhar...
Eu...
                                                                                              Um Fauno (15/03/12)

domingo, 11 de março de 2012

Antes do Fim dessa Aurora

Esqueça o problema infindável
O seu impulso indomável
De acabar com a insegurança
Tornai-o uma mera lembrança
Pegai o futuro nas mãos
Pagai o preciso pra ser
Ouvir o destino dizer
Que não existe!
Ah! O destino, pregador de peças
Mas deu dicas de seu paradeiro
Está na cabeça do homem
Predestinado é só julgamento
Pra esquecer do tormento
Gerado no fim do momento
Do nascimento das fúrias
Do esquecimento dos tesouros
Pois estamos despreocupados
Com horrores e sinceridades
Com ódios e inverdades
Justiças, coisas vadias...
Hei de beber minha cerveja
Ao lado de meus nobres amigos
Sem me importar com os castigos
Que o meu futuro reserva
E aos meus tolos desejos
Pagar tributos de outrora
Antes do fim dessa aurora
Botar ao lado as cabeças
Dos velhos guerreiros lembrados
Em cânticos indomados
Em cânticos indomáveis
No céu de teu ontem eterno
No véu de uma donzela cega
Saborear os bons ventos
Da mudança e da criação
E olhar verdejante ao redor
Ouvindo do mundo a canção
                                                                                              Um Fauno (15/07/09)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Fraqueza Sufocada

“Todo homem clama por paz, mas vê o sangue escorrendo e não faz nada. Todo homem foge da guerra, mas corre de punhos cerrados para cima de seus inimigos. Todo homem grita ‘injustiça’ quando vê os mais fracos sendo molestados, mas não oferece a própria mão à chibata para aliviar a dor destes. Todo homem chora no escuro esperando que o calor da luz seque suas lágrimas. Mas eu não, eu não consigo mais chorar...
Diz-se que para toda regra, há uma exceção. Se em toda sociedade houver um único homem contrário a pelo menos alguma dessas ‘leis’, então não serei o único pária. Poderia ser tudo isto ou nada, mas, infelizmente, não optei por nenhuma dessas condições. Tornei-me assim por causa nenhuma, sem nenhuma razão aparente e, infelizmente, eu sou a exceção à regra mais inútil. O tempo e o mundo me endureceram ao ponto de não querer, ou mesmo poder, demonstrar minhas tristezas e pesares. Por pior que eu esteja, eu não consigo chorar.
Se eu fosse o que luta por paz, o que ajuda aquele que sofre, o que clama por igualdade e liberdade, o que enfrenta a guerra com ações de paz, talvez fosse mais útil em algum ponto ou aspecto, mas, sou aquele que aceita tudo o que ocorre sem demonstrar qualquer objeção. Meus canais lacrimais oram para serem irrigados, porém, não é de meu feitio ou vontade extrair sangue de minha alma. Minha alma já sangra demais a tinta que eu uso para escrever, e não deixarei que ela sangre mais nada além disso. Com este sangue de tinta, posso demonstrar como me sinto, sem que para isso eu precise chorar. Posso fazer de meus sentimentos versos e, de meus versos, sentimentos.
Com lágrimas, me mostro fraco, exponho que ainda sou humano e, num mundo onde o desumano tronou-se o natural, humanidade é sinônimo de fraqueza. Atrocidades são sinônimo de força, opressão é sinônimo de governo, mentira é sinônimo de compreensão. Nessa situação despudorada, de profanação de direitos e igualdades, não há lugar para os fracos, e os que choram, são vistos como alvos fáceis para a erradicação. Eliminando-os, será mais fácil a concretização do poder. Quando houver apenas os fortes, estes saberão contra quem lutar, saberão quem deverá morrer, saberão quantos faltam para serem sobrepujados.
Não digo que faço parte dos fortes por não mais chorar, apenas que não quero demonstrar que sou fraco. Apenas não quero ser eliminado e, creio que é por isso que há tão poucos sobreviventes dos que quebram as outras normas. Para que sejam concretizados esses antônimos, muitas vezes é preciso manchar o rosto com lágrimas e, com isso, demonstrar que ainda há sentimento, que ainda há compaixão e, demonstrações de humanidade, são sinônimos de fraqueza.
Aqui, na terra da máquina, do metal e do dinheiro, não há espaço para atos de caridade. Não há espaço para os que pensam nos outros. Aqui, onde reina o egoísmo, a fome de carne humana e a sede de poder, não há espaço para demonstrações de piedade e altruísmo. Não há espaço para lágrimas, onde reina a tristeza. Não há espaço para lágrimas nessa terra de ironias, onde a mais inútil das exceções se torna o mais útil dos subterfúgios. Não há espaço para humanidade, onde cometer atrocidades é ‘ser humano’. Não há espaço para a vida quando os ídolos são guerreiros impiedosos, que matam sem piedade e corrompem sem nenhum esforço.
E todos os pacifistas, choram. E todos que perderam alguém, choram. E todos que estão prestes a morrer, choram. E as mães, pais e irmãos, choram e, mesmo que todos neste mundo vil chorassem, não haveria lágrimas o suficiente para lavar e banir toda a sujeira que aqui se instalou. Por estas e outras razões, não derramo mais as minhas lágrimas. Algo tão sagrado quanto lágrimas só deve ser derramado com coisas que realmente valem a pena, não por causas perdidas ou razões inúteis. Este mundo me endureceu de tal forma que não mais consigo chorar. Mantenho minhas lágrimas comigo, sufocadas dentro de meu peito, esperando que um dia, algo as venha libertar, algo pelo que realmente valha a pena chorar, algo tão sagrado quanto um nascer do sol, iluminando uma rosa solitária num campo desolado pela guerra.” – C. J. Amorim (07/03/12)

segunda-feira, 5 de março de 2012

A Língua dos Mortos

“Não há verdade maior que o silêncio. Essa é a língua dos mortos, a última coisa que iremos ouvir, a única que nos fará sentido, o veredito de todas as eras e a coerência por trás de todas as palavras vazias. O silêncio é a presença do absoluto, do imutável, do derradeiro e da sincera realidade. Sorte dos surdos por não ouvirem as asneiras verborrágicas de nossas imbecilidades, tristes e inúteis comentários e verbetes que somos obrigados a ouvir do amanhecer ao ocaso.
E, no ocaso, quando cessa o som e apenas a respiração se torna audível, podemos ter reais diálogos com as verdades que nos cercam. Mudos os sons antinaturais, conseguimos ouvir o que brota ao nosso redor, a relva se formando, a raiva se esvaindo, o rufar dos minutos sumindo, o resto desaparecendo. Ouvimos o que deveríamos ouvir o tempo todo, o corpo chamando. O suor escorrendo, o sangue pulsando, o ar passando dos pulmões para a superfície e de volta aos pulmões... Mas esta ainda não é a verdade.
A verdade é que não se ouvirá nada no fim. Mortos não cantam, e, por mais ruidosa que a morte nos pareça, o único som que ouviremos antes de começar a ceia dos vermes, é o silêncio, e o silêncio não projeta som algum.
Há quem dirá que as verdades vêm com o barulho, mas essas são verdades efêmeras e, se você perceber, o silêncio sempre reina no final de tudo. ‘Mas e as músicas? E os gritos e gemidos? E as explosões das guerras atômicas, as bombas ameaçadoras? Os gritos de coação, os ‘mãos ao alto’, os ‘pega ladrão’?’. Tudo em vão...
No fim do ‘track’, reina a brecha entre uma música e outra. Depois dos berros, reina a rouquidão. Depois da guerra atômica, reina a morte. Depois dos tiros e agressões, dos choros e reclamações, das perdas e reações, reina o conformismo e as cabeças baixas. Tudo regido pelo silêncio, tudo silencioso...
E por estas e outras, ando ouvindo mais o silêncio do que o que antes eu ansiava por ouvir. Palavras dos que tanto quis, hoje vejo que nada valiam. Discursos que me comoviam, apenas desperdício de tempo. No fim, só o silêncio, a pausa para pensar. Nessas pausas que pude realmente ver o quanto o silêncio é valioso. Em silêncio, digerimos as ideias que nos são apresentadas e que nós mesmos desenvolvemos. No silêncio conseguimos validar as informações que adquirimos e, os mortos devem saber disso bem melhor do que nós.
Mas, quando finda a nossa efêmera linha vital, não mais teremos como aproveitar as brechas que o silêncio nos deu. Se apenas quando morrermos aprendermos a língua dos mortos, não teremos razão para usá-la, pois mortos não falam. Devemos aproveitar nosso silêncio para darmos voz às reais verdades, aquelas que nos fazem sentido, que regem o nosso viver. As verdades que nos fazem prosseguir, que nos deixam vivos. Devemos aproveitar o silêncio, para descobrir o quão longe podemos ir, sem sequer precisarmos andar. Devemos aproveitar o silêncio para descobrirmos nossa própria verdade e darmos ouvidos a nós mesmos.
E é por isso que, pensando no silêncio, eu afirmo que, ultimamente, ando me sentindo meio morto...” – C . J. Amorim (04/03/12)

sábado, 3 de março de 2012

Robota

O sono já começa a dominar
O derradeiro sono mortal
Mas dentro da câmara oca
Não há mais neurônios pensantes
Apenas moram os cabos elétricos
E as rédeas da informação

As dores começam a aumentar
Os cortes que sangram veneno
O óleo pulsando negro
Caindo dos olhos qual lágrimas
Molhando nossos rostos mascarados
Moldados por pintores profissionais

O peito batendo apertado
Abafa o ruído do choro
Som de gravador quebrado
Fita enrolada no pescoço
Estrangulando o grito rascante
Que o Tape insiste em tapear

Os olhos já não abrem mais
Não abrem, pois não param fechados
Binária linguagem vomitada
Escreve na linha da vida
Apagando o registro sereno
Do orgânico que um dia fora

Os membros não mais voluntários
Atados por cordas frenéticas
Marionetes do sistema falho
Sistema que nós criamos
Brinquedos de nossos brinquedos
Somos jogos da plástica vida

Individualidade corrompida
Manequins da corrupção
Vestidos com falsas idéias
Damos vós às palavras sujas
Que ventríloquos impiedosos
Insistem em botar em nossas bocas

A alma já não mais existe
Liberdade nem sonho tornou-se
Dominados voluntariamente
Deixamos nossas identidades
Somos só mais peças perdidas
De um interminado quebra-cabeças
                                                                                              Um Fauno (29/02/12)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Contagens e Compassos

“Eu danço conforme a música. Todos dançam, mas ninguém percebe. Todos pensam ser os reacionários, revolucionários, mas todos, sem exceção, dançam conforme a música. Somos filhos de eras que há muito se foram mas que ainda nos influenciam direta e indiretamente. Vestimo-nos dessa forma devido à forma como o mundo um dia se vestiu, pensamos dessa forma devido à forma como o mundo um dia pensou. Positiva e negativamente. Se queremos ser o avesso da realidade, é porque há a realidade. Se queremos ser iguais à sociedade, é porque há uma sociedade. É lei.
Todos dançam conforme a música, e isso já estava escrito. Fora previsto antes do nascimento de qualquer profeta ou Deus vulgar. Estava intrínseco no banco de dados do universo e vem intrínseco no cérebro de todo ser que nasce em qualquer lugar que seja. Está intrínseco em nossos membros mover-se conforme a música, dançar conforme a música.
Conforme-se, não há como escapar dessa realidade. Não há como escapar da música. Ela toca em todos os lugares que você vai, ela soa por todos os cantos e becos. Não há como escapar. Não há como tapar os ouvidos a uma canção que retumba dentro de tua caixa craniana. Não há como distanciar-se dos acordes viciantes desta melodia. É a lei.
E, se dizem que você está fora do ritmo natural da música, você é erradicado, extirpado, expurgado, exilado. Você é tratado como um estranho, te vêem como um anormal, você, o deformado, o distante. Mas estes não percebem que não há como dançar errado neste ritmo pulsante que nos embala. Não há como estar fora de tempo quando a melodia abrange todas as contagens e compassos. É lógico, não se pode escapar da música. Estamos fadados a nos mover e dançar ao som dessa eterna música, essa que embala a realidade desde que tudo surgiu.
Ela nina nosso sono, ela desperta nossas manhãs, ela toca nossos corações, ela sai de nossas bocas sem percebermos, ela trilha nossas viagens, toca em nossos funerais, embala nossos festejos, vive conosco o tempo todo e nós, adicionamos mais e mais acordes, cada um de uma forma, todos ao mesmo tempo, para que ela não termine jamais. Não se pode deixar terminar. A eterna e incontrolável trilha sonora de nossas realidades.
Está implícito: dance conforme a música. Nos bancos de dados da sociedade, sentamos em bancos imundos e rolamos os dados pensando no acaso, mas estes girarão ao ritmo da música. E, frenéticos, perceberemos que estamos atentos a essa melodia mesmo quando não percebemos. É o cântico de todas as eras, da sociedade incontrolável. Seguimos à risca a pauta desta canção, sem nenhum maestro para nos guiar, pois que não precisamos de orientação para explicitar aquilo que conhecemos perfeitamente.
Eu danço conforme a música, conformei-me e tudo segue nos conformes. Eu tenho pleno e total conhecimento da existência de uma música que rege a realidade, que não foi composta por ninguém e foi composta por todos ao mesmo tempo. Não tentei mais escapar quando vi que era inevitável e aprendi a conviver com ela, pois do contrário seria insuportável. Pensar em algo que nos rege o tempo todo? Seria insuportável...
E que som a melodia tem para você? Seria o mesmo que é pra mim? A quantos compassos? A quantos tempos? Você a ouve o tempo todo? Não importa, apenas dance. Dance conforme a música...” – C. J. Amorim (02/03/12)