segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sabe...

“Sabe, eu ainda sinto, mas agora é com menor intensidade. Ou não, posso apenas estar me enganando novamente... Sabe, eu não sei se realmente gostaria de saber, mas agora parece que não tem mais tanta importância. Eu soube de algumas mentiras que eu nunca acreditei serem verdadeiras, mas disso, você não sabe. Elas foram por você proferidas, pela tua língua mansa, aquela que um dia a minha própria língua tocara. Sabe, eu nem senti tanto desejo por ela, não sei mesmo o porquê de ter me atado a um laço tão fraco por tanto tempo...
Sabe, eu sei de tudo, sei mesmo! Pareço ignorante, em todos os sentidos, tolo, fútil, rude, um imbecil completo e, agora, muito mais distante do que o normal, mas foi o subterfúgio que encontrei para aliviar minha dor. Eu te via dançar por sobre as horas, durante o espaço entre um encontro e outro, e admirava o rodar de tua saia, apenas admirava. Sabia que não mais a tocaria, mas mesmo assim, preferia acreditar em minha ilusão do que nas palavras dos sensatos que me aconselhavam. Sabe, eles sabiam de tudo e por eles eu fiquei sabendo de várias coisas também. Mas isso, não era pra você saber e, provavelmente, nem ficará sabendo...
Eu sei que fui crédulo demais sem motivo nenhum e não é a primeira vez que eu faço isso comigo mesmo. Sabe, eu não tenho dúvida que eu mesmo prego peças em mim. Eu sou meu próprio ludibriador. Era nítido o que estava ocorrendo, mas, mesmo assim, vendei meus olhos à realidade e deixei reinar o que corria em minhas veias, aquilo que meu dolorido coração pulsava. Injetei em minhas veias doses e doses de você. Injetei em minhas veias doses e doses de mais do mesmo, de mais ilusão, de mais sentimento desperdiçado, de mais besteiras melodramáticas e melancólicas. Sabe, eu sempre fui assim...
Eu sempre preferi acreditar no efêmero, no irreal, a crer nessa realidade podre e vil que eu mesmo me propiciei. Meus vícios são meus subterfúgios, meus analgésicos, meus anestésicos. Mas meu vício por amores irreais consegue me dopar mais do que qualquer droga que possa me propiciar prazer. Drogo-me com letras, livros, flores, imagens e lisérgicos, mas, mesmo com todas essas drogas eu não conseguia escapar de você. Em todas essas drogas, havia um pedaço seu. Sabe, eu sei que você se droga com as mesmas coisas que eu, e até com outras mais e com mais freqüência do que eu, e que faz isso para fugir de uma realidade que, como a minha, você criou e não mais deseja, mas você ainda não sabe disso... Ainda...
Sabe, eu já passei por isso antes e sei que passarei muitas vezes mais. Estou passando por essa e espero que isso fique no passado. Em meu futuro, eu quero coisas novas, ou, quem sabe, reavivar umas ainda mais antigas. Reavivar coisas de antes de você nascer no solo fértil de minhas idéias e florescer nas imundícies de meu peito. Há quem diga que sabe como eu me sinto, há quem diga que nunca saberá, mas em todas essas palavras as que doem mais são os sussurros que de tua boca saem e que se perdem nos ouvidos alheios... Sabe, eu sei...
Eu sei de tudo, sei de tudo o que está havendo. Eu vejo, eu sinto, e consigo discernir o que é verdadeiro e o que está mascarado. Eu percebo o que ocorre ao meu redor e interpreto de uma forma que ninguém imagina... Dos que me cercam, poucos sabem que eu sei de tanto e eu faço questão que estes dividam essas verdades comigo. São pessoas, animais como eu, que conseguem suportar essas verdades, pois as engolem e as deixam armazenadas, misturando-se com uma bile ácida e acumulando-se com tantas outras verdades, prontos para as vomitarem quando for conveniente. Sabe, essa é uma atitude que me descreve perfeitamente: armazenar verdades e vomitá-las quando for necessário... Sabe, eu sempre disse que armazenar informações demais trás câncer, mas esse tipo câncer eu conheço como a palma de minha mão e sei como tratá-lo perfeitamente...
Sabe, eu não sei porquê ainda me preocupo com tudo isso. Você nem mesmo lerá todo esse amontoado semi-lógico de palavras. Parece mera verborragia, mas há os que entenderão, e, quem sabe, sentirão, tudo isso que eu escrevi, não por terem vivido essa situação ao teu lado, mas por terem vivido situações semelhantes a essa. Espero que isso chegue ao alcance de quem me entenderá, porque eu já não sei se faço isso por mim, por você, por ninguém ou por todos...
Sabe, eu já não sei quem é você, mas ainda sei quem eu sou e somente isso me importa. Sabendo isso perfeitamente, posso decidir o melhor pra mim, posso me ludibriar e me drogar com novas pessoas e jamais esquecer as drogas que mais me fizeram sofrer. Eu vejo, finjo crer no que vejo, finjo crer no que não vejo, finjo até não ver algumas coisas, mas o que andei percebendo é que tem gente que não sabe de nada. Você não sabe o que faz ou até mesmo quem é. Perdeu sua identidade para uma droga de realidade que escolheu e, me drogando em você, vi que eu mesmo estava me perdendo e agora eu sei disso, pois me vi imerso num poço de ignorância e nadei de volta para a superfície de meu próprio ser.
Sabe, só sei que de tudo sei e que de nada sabes. Soube por mim, que não saber pode nos tornar melhores, mas saber de certas coisas, trás o alívio de estar certo quando menos se espera. Só quero que saiba que estou bem assim e que não é necessário se preocupar comigo, pois sei cuidar de mim mesmo e sei de quem queira me ajudar com isso. E você, sabe se pode contar consigo ou com quem te cerca? Sabe, eu não quero nem mais saber disso...” – C. J. Amorim (27/02/12)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Lamúria

Limpo, puro e melódico
Este é meu amor por você
Como crianças na chuva, dançando,
Pulando em poças frias
Com sorrisos mornos nos rostos
E os corações quentes nas mãos
Doando
Se doando
Inteiramente uns aos outros
Como se fosse normal sentir
Algo assim tão...
Recíproco
Inocente.
Quando se é
Se faz, se fez
Inteiro, intenso e verdadeiro
Único e igual
Ao que nunca antes fora visto por ninguém.
Se fosse, se fôssemos, seríamos
Sem a seriedade que abrange o mundano
Seria algo fora de série...
Mas não há
Reciprocidade tão sincera quanto a que devora meu coração
Esta que ocorre
Entre meus sentimentos e apenas
Entre mente e coagulação, entre lógico e sentimental.
Não há, neste teu peito
Aconchego para o meu corpo cansado
Não há lógica que permita minha presença ao seu lado
E nosso sentimento é ainda infante
Como aquele que ocorre
Entre duas crianças
Que há pouco se conheceram
Mas que já juram amores
Nas gotas da chuva.
É nosso, mas é mais meu
É nossa, mas nunca foi minha
Crescemos e desaparecemos
E atuamos como figurantes nas vidas um do outro
Mas estamos sempre ali...
Às vezes, até ocorre uma interação
Mas a parede de vidro que foi erguida entre nós
Impede que eu continue...
Continue, pois que não posso mais continuar
Perdão por ter me tornado algo que nunca quis me tornar
Mas, para sua segurança, sempre estarei aqui
Esperando que retorne
Que me conte teus casos mais absurdos
Tua vivência nesta nova idade
Tua novidade nesta nova vida.
E por ti,
Meu sentimento morre e renasce,
Mas meu nascer do sol há muito foi abalado
Pelo amor dos infantes, jurado,
Sob as gotas da chuva
Que escorre de meus olhos.
                                                                                              Um Fauno (26/02/12)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Súmula Sincera

Confino-me a sinais e parentescos
Pra arrancar canções de meu temor
De um vil demônio, que me come o amor
E me condena a ódios pitorescos

De minha alma, esquadrinhar os becos
Pra me esconder da culpa e do horror
De um conformismo em ser um perdedor
Um pária, cujos olhos seguem secos

E mesmo sendo do desgosto um filho
Sigo pecando em súmula sincera
De um hino oculto por mortalhas vivas

E repetindo um fúnebre estribilho
A voz da culpa ainda reverbera
Mais alta e forte que as canções nocivas
                                                                                              Um Fauno (20/10/09)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Morada das Pequenas Feras

Quando chegar o fim comum à vida
Encontrar-me-á em teu leito imortal
Desejando-te interna em minha moral
Não como um que te achava querida

Invado, assim, tua casa sepulcral
Querendo, em ti, criar nova ferida
Teu coração, sangrando, é só comida
Pra terra, um corpo podre, um animal

Sou verme, mas ao menos estou vivo
A todas covas frias, sou nocivo
Pois sou servo telúrico, devasso

Tua alma, já liberta, não reclama
Se faço de tuas carnes minha cama
Se em teu túmulo, enfim, me satisfaço
                                                                                              Um Fauno (08/07/09)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Tanto

Eu me impressiono com o tanto que minto
E em como finjo, com tal perfeição,
Que faço juras, tão cegas, tão vagas,
Desnecessárias pro meu coração
Ao mesmo tempo em que trago escondida,
Em minha alma, uma antiga paixão.

Já falhei tanto, que quase não penso
Ao fazer planos pra te conquistar
Manipular situações me apraz,
Mas meus fracassos me fazem lembrar
Que mesmo longe de infâmia e de dor
Minhas desditas irão me atacar.

Ao mesmo tempo em que sinto e não sinto,
Por tudo e nada, uma vil atração,
Voltam à tona lembranças amargas
De tantas chances, perdidas, em vão,
E enfim percebo, que em lúdica vida,
O amor não passa de errônea opção.

Já não me importo se tive bom senso
Ao mentir prantos, fingir meu pesar
Se enganei, se traí, tanto faz,
Pois, de desejos, não posso escapar
E sei que, mesmo não crendo no amor,
Enquanto vivo, estarei a te amar.
                                                                                              Um Fauno (11/09/09)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Testamento

Silêncio, não passo idéias através de sons
Audível apenas o mero escrever
Crio monstros usando rosas, o sangue de um passado ser
Eterno, apenas a alma, que se perdeu em estranha loucura
Loucura que pude ver

Não creio que seja pra sempre, mas será enquanto durar
O fogo da vida que ardia, já não ouço crepitar
A vaga lembrança, maldita
Já é névoa na mente sombria
De quem não pode se levantar

Eterno, o sofrimento é seguido de dor
Os sons da foice da morte, já dizem que o fim chegou
Prepara o bálsamo, torpe, que cala o que ninguém falou
A carta de um nobre mendigo vos diz o que podes pegar
O resto do que restou

E a crise, a crise da separação
O laço que nos unia, enfim se desatou
Espero por meu castigo, que há pouco se consagrou
A carta que fiz de mim mesmo
De sangue, na pele não morta, te dirá quem me desmascarou

Mais nada, não precisas de nada saber
Ouve apenas o que lhe é dito e seleciona o que não deve esquecer
A crise, que já é passado
É vaga lembrança da carta
Que o mendigo não soube escrever
                                                                                              Um Fauno (07/03/08)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Último Cigarro

“Acordou. Abriu os olhos vagarosamente, desligou o despertador e levantou-se. Odiava aquele despertador, mas, ultimamente, era a única coisa que o acordava. Estranhou o estranho aroma de nada no ar. Foi até a cozinha e estranhou que não havia café pronto e que o jornal não estava sobre a mesa. Ainda não havia se acostumado com isso tudo. Já fazia dois meses que ela havia ido embora e ele ainda não tinha se acostumado.
Foi ao banheiro e passou o trinco na porta, pois não se sentia à vontade deixando a porta aberta quando estava fazendo suas necessidades, mas não havia necessidade para isso, estava sozinho no apartamento outra vez. Olhou para o copo em cima da pia, para a única escova de dentes, esgarçada e solitária, que ali jazia e para o tubo de pasta apertado no final. Ela não gostava que ele apertasse no meio. Mas não havia mais ela...
Voltou à cozinha, colocou a água para ferver, interfonou à portaria e pediu para que levassem o jornal para ele. Trocou de roupa, colocou os pertences nos bolsos, atendeu a porta e pegou o jornal. Jogou-o de qualquer jeito sobre a mesa cheia de pratos e copos sujos, espantando algumas moscas que estavam pousadas ali. Foi até a sacada, tirou o maço de cigarros do bolso e percebeu que era o último. Acendeu-o, deu um trago e debruçou-se no parapeito, molhado pela chuva da madrugada. Não se incomodou com a umidade que marcava a manga da camisa social. Guardou o maço vazio para jogar fora quando voltasse à cozinha.
Olhou para a rua, ainda vazia de gente e de carros. A cidade ainda dormia, estava começando a acordar. Pensou um pouco, nas besteiras rotineiras, no que iria almoçar e se iria mesmo almoçar. Já não se importava tanto com sua saúde como há uns dois meses atrás, por isso voltara a fumar. Ela detestava cigarros, mas, já não havia mais ela...
Lembrou-se de passar no mercado e comprar congelados (eram mais fáceis de preparar) e de que teria que comprar cigarros. Bateu a cinza e assistiu ela se desfazendo em queda livre pelo ar frio e sujo daquela cidade. Assistiu ela se camuflando no cinza dos prédios concretos da cidade e se perder nos ares do progresso, no bafo da máquina. Olhou a brasa por uns segundos e divertiu-se vendo ela queimar o fumo e o papel. Olhou a fumaça dançando tempo acima, rumo ao céu e se perdendo no vazio do espaço. Olhou para o céu cinza de nuvens, já mais leves que na noite anterior e mais leves que o clima que pairava sobre sua medíocre vida.
Sentiu necessidade de um outro trago, mas antes que levasse o cigarro à boca, distraiu-se com uma música longínqua que surgia. Era uma dessas músicas que nossas avós ouvem, que a gente conhece, mas que não faz a mínima idéia de como se chama ou do nome do cantor. Lembrou-se dela outra vez, do quanto ela se divertia ouvindo essas velharias que ninguém mais dá atenção, a não ser nossos avós. Devia estar vindo de uns andares acima, mas não se importava com isso. Apenas apreciou alguns acordes.
Pensou em ver se a água já havia fervido e em terminar de preparar seu café, mas desistiu da idéia ao ver que ainda sobrava cerca de meio cigarro. E era seu último cigarro, não podia desperdiçar essa brecha de tempo, do tempo de fumar seu último cigarro.
Divertiu-se com o quanto pareceu irônico pra ele pensar nesse como seu último cigarro, como se fosse se jogar daquela sacada, ou como quando prometera a ela que pararia de fumar. Sorriu bobo, por parecer tão inocente com esse pensamento. Ele, de fato, pensava que nunca mais iria fumar depois de ter prometido a ela e, agora, se via assim, entregue outra vez a seus vícios banais, de fumar, beber porres memoráveis de conhaque barato, sozinho em seu apartamento, inabitável de tanta imundície, de chorar de soluçar quando estava triste, demonstrar fraqueza e pedir por clemência a qualquer força sobrenatural que não seu Deus, que há muito havia abandonado. Seu vício por letras, por escrever qualquer coisa que fosse, em qualquer papel que fosse, com qualquer tinta que fosse...
Bateu a cinza e pensou em bater a cinza pedra de concreto sujo contra sua face, aquela na qual as pessoas pisavam e que se localizava exatamente abaixo de sua sacada. Sim, pensou em se matar, mas, logo em seguida, pensou que isso de nada adiantaria e que isso só traria mais tristeza para ela e para aqueles que gostava. Pensou nas contas para pagar e nos colegas de escritório, sempre com as mesmas piadas e os mesmos assuntos. Pensou no salário do fim do mês e em parar de fumar em definitivo. Pensou em quando ela o abraçava por trás, enquanto ele observava a manhã, parado na sacada, e em como ela beijava seu pescoço e sussurrava em seu ouvido o quanto o amava.
Deixou a lágrima rolar pela face contorcida e cair por sobre as costas de sua mão, a que segurava o cigarro quase morto, exceto pela brasa que ainda queimava. Percebeu que havia ficado todo esse tempo pensando e que havia dado apenas um trago em seu ‘último cigarro’. Riu com esse pensamento, riu mesmo!
Riu alto para que toda a cidade acordasse com o som de seu riso. Riu para ecoar dentro de seu apartamento e dentro de seu peito e, percebeu que não importa quantos últimos cigarros haja, sempre há possibilidade para um novo e fez uma analogia aos amores. Não importa quantos amores nocivos, tanto quanto cigarros, existam, você sempre está propenso a um novo amor, tão devastador quanto o último, e você se deliciará com o sabor que ele deixará em seus lábios, e com a sensação de saciedade em estar com aquela pessoa do seu lado. E, se um dia acabar, sempre surgirão maços e maços de novos amores nos quais se viciar. Que a vida continua e não podemos nos atar aos dias que se passaram e que nos passaram pra trás.
Botou um sorriso nos lábios, jogou a bituca na cinza pedra fria da calçada logo abaixo, pensou nas contas pra pagar, fez seu café, leu seu jornal e saiu, rumo a um novo dia.” – C. J. Amorim (15/02/12)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

De Nosso Feitio

Longe de tudo, de todos, do todo
A alma dançava, furtiva, serena,
A mente gritava, o corpo sonhava
O ser conflitava com a própria vontade
Havia certezas, havia respostas
Desprezo constante pelo mesmo distante.
Distância queria de tudo que tinha
Distância sentia de tudo que havia
Distância era o nome que agora vestia,
O outro, abandono por causa mais justa
Olhava pra frente buscando o passado
Querendo esquecer seu desejo atilado
De mesmo ser, estar, ter, conviver
Era novo agora, era tudo que quisera
Que quisera ser durante tanto tempo
Não tinha saudades do mundo real
Não tinha saudades do sonho ideal
Não tinha saúde que prendesse suas chagas
Seu sangue corria por tudo ao redor
Um rio turvo e rubro, pulsando verdade
Contagiando a grama crescente e constante
Constantemente pisoteada por sapatos imundos
De terras ermas onde tudo é normal
Onde eram cordeiros de um pastor cruel
Cabresto informativo que deixaram de vestir
E agora respiravam liberdade entorpecente.
Nus, corriam pelos prados coloridos,
Avessos aos campos que já conheciam,
Lisérgicos campos criados por ninguém
Com árvores altas, de frutos tão doces
Sinestésicos hinos cantados por aves
Chamadas Pensamentos.
A droga: liberdade
O sonho: verdade
Seus nomes: vontade
E eram tudo o que quiseram ser
E tiveram tudo que quiseram ter
E eu era tudo que eu podia querer...
Minha alma dançava, meu corpo sonhava,
A mente gritava, eufórica e livre
Do mundo invertido que um dia habitara
Liberdade, terra erma, desbravada por ninguém
Morada de nós, loucos cordeiros sem Deus
Divindade sendo apenas a própria pessoa
A vontade de continuar imerso em sanidade
Sempre sendo insano e cruel de verdade
Algozes de injúrias, senhores de glórias
Sem horas pra sermos o que sempre somos
Sem máscaras, sem papéis que precisemos interpretar
A não ser que seja de nossa vontade
De nosso feitio.
                                                                                              Um Fauno (13/01/12)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Sem Vil Peçonha

Um caos sintético reinava
Gerado numa falsa agnação
Cobrindo com uma parca sensação
Os seres vivos do local cercado
            E minhas mentiras

Esse tal caos não nos deixava
Ia e voltava, sem pressão,
Mas pressionando, causando opressão
Nos seres cegos do altar trancado
            E em minhas desonras

Linhas erradas sem consciência
Erradicavam sua descendência
Sem ciência
De como poderiam lutar
Por falsa cura de tuas dores
            E teus amores

Ósseas fibras mal comprimidas
E vilanias tão oprimidas
Por tuas vidas
Sem saber que poderiam errar
E levantar nova esperança
            Uma aliança

Assiduidade que renovava
Um aviltado vulto, um irmão
Não consangüíneo por antemão
Escárnio louco e exacerbado
            Em minha memória

Devaneava e não acordava
Dessas triagens tão sem razão
Plásticas, densas, por proteção
De um poço de sangue errado
            E sem história

Se agregavam, essas criaturas
Por densidades fatais e impuras
Tão duras
Que não havia razão pra deixar
Essa união absurda ocorrer
            Em falso ser

Um organismo oco e sem luz
Não medicado, pois que não produz,
Seu arcabuz
Descarregado, em busca de um lar
Uma bainha talvez compatível
            Incoercível

Deixar de lado a realidade
E concentrar-me somente em escrever
Pois que sabendo que sei meu saber
Já não preciso sentir-me qual cobra
            Sem vil peçonha

E perceber que não são de verdade
Essas estrofes que fazem por ser
Mostrando a insânia que posso, enfim, ter.
Se faz sentido pra alguém, esta obra
            Peço perdão.
                                                                                              Um Fauno (30/09/09)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Após

“Eu aprecio olhar para o relógio e ver quando um dia se torna outro. Me faz pensar que pelo menos por mais um dia eu consegui sobreviver. Me faz pensar se terei pelo menos tempo para desfrutar da maioria das 24horas que o novo dia me oferece. Me faz pensar...
Meu relógio digital não me oferece os segundos, coisa que me possibilita brincar de adivinho. Olho atentamente para os números imutáveis tentando descobrir quando se tornarão um novo tempo, uma nova seqüência lógico-numérica que nos dita regras, que nos põe num padrão. Nas últimas horas do dia, nada disso importa. Não para os habitantes do dia.
Os trabalhadores só querem deitar suas cabeças nos travesseiros macios, que seus conjugues prepararam com tanto carinho. As crianças se cobrem até a cabeça, para evitar que suas crias imaginárias venham devorar seus doces sonhos. A natureza descansa, esperando pelo raiar do novo dia. Mas há também os boêmios.
Para os habitantes da noite, os minutos corridos são deveras preciosos. Cada fração de tempo que escorre é menos um gole aproveitado, menos uma carta marcada, menos um movimento calculado. 23:54, mais um cigarro intragado. 23:54, mais um cigarro acabado. 23:55, mais um gole derramado. 23:55 mais uma garrafa seca, vazia. 23:56, conversas desperdiçadas. 23:56, sorrisos falsos nos rostos. 23:56...
E, quando acaba a noite, vem a madrugada, e segue-se o ritual. Minutos que passam, garrafas que acabam, maços vazios, crianças que nascem, crianças sendo concebidas, infâncias sendo destruídas, crimes, abominações, o choro da criança com fome de leite, a reclamação do trabalhador que acorda com o berro do filho, a dor de cabeça estourando as têmporas, soníferos, calmantes, porres, drogas, insanidades... E só os minutos escorrendo. São só os minutos escorrendo.
Olho pra trás e vejo quanto tempo perdi contando o tempo que perdi. Olho pra trás e vejo as pessoas que perdi no tempo que passou, enquanto eu contava o tempo que passou quando as pessoas perdiam tempo comigo. Olho pra trás e não vejo mais nada além dos traços dos anos passados que compuseram meu presente um dia. E agora já é passado. E agora já é passado. E agora também já é passado...
Olho pro relógio digital e vejo que ponteiros são passado. Olho pros ponteiros e vejo que o sol é passado. A luz que nos chega das estrelas é só mais um sinal do passado. E ano passado, já é passado. E agora já é passado. E agora já é passado. E agora também já é passado...
O cigarro tragado é passado. O mês passado é passado. Brincadeiras de adivinhos são passado. O futuro um dia será passado. O presente de agora já é passado, pois agora já é passado. Mês passado eu tinha um relógio digital que comprei com meu salário passado, mas ele quebrou e o relojoeiro disse que ele estava fora de moda desde o ano passado. Fazer o que se eu gosto das coisas antigas, se gosto de viver de passado?
Semana passada, lembrei-me de amores passados. Sorri. Me fizeram bem. Segundo passado me lembrei de ter escrito sobre amores passados. Sorri. Me fizeram bem. Agora... não, agora nada. Agora já é passado.
Passou o dia. 00:10, não terminei de escrever. 00:10, penso em como esse dia vai ser. 00:10, será que consigo adivinhar quando mudará o minuto? Passou... E já é passado... 00:11, penso em ler tudo de novo. 00:11, já é passado.
Será que desfrutarei da maioria das 24 horas desse dia, ao contrário do que fiz no dia passado? Não importa, daqui a pouco esse dia também será passado...
O relógio digital acusa 00:13... E daí? Daqui a pouco, agora será passado. E agora já é passado. E agora já é passado. E agora já é passado. E agora já é passado...
E agora passado? Como viverei meu presente se este presente já é passado? Não importa. O que importa é continuar vivendo, dia após dia, meia-noite após meia-noite, garrafa após garrafa, amigo após amigo, relógio após relógio... Passado após passado.” – C. J. Amorim (10/02/12)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pecado

Descansa em paz, ó tolo maltrapilho
Que foi um pai pra todas carnes fracas
Pros podres velhos, pras crianças parcas
Pros nobres ódios de um total exílio

Segue seu rumo, seu severo trilho
Sem preocupar-se com fechadas arcas
Que guardam jóias de damas opacas
Que renegaram seu solene filho

Seu sangue corre ainda em minha alma
E não revelo meus esconderijos
Pois sei que queres renascer comigo

E relembrar-me seu perpétuo trauma
De não poder sonhar seus regozijos
Devido ao medo de mortais perigos
                                                                                              Um Fauno (19/10/09)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Entrementes

Há entre minhas fétidas memórias
Lacunas específicas, veladas,
Estúpidas, corruptas, cravadas
No fundo de ilógicas histórias

Vão entre mentes tão desatinadas
Que entrementes tornam-nas escórias
Por causa de suas forças compulsórias
Que impelem-nos a falhas planejadas

De uma amnésia louca, destrutiva
Derretem minha vã matéria viva
Fazendo com que, sóbria, se consuma

Derrotam-me, e um delírio me tomando
Remontam as falhas céticas, levando
O baque, a forma, a força, a vida em suma
                                                                                              Um Fauno (20/10/09)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Máculas e Vontades

“Quero um pouco de realidade, sair um pouco dessas ilusões que me cercam. Quero sangrar por uma causa válida e não pelos devaneios que minha mente me proporciona. Quero a matança, a falta de grana, a cirrose, a morte, a dor da perda de um amor verdadeiro, e não dos que pensei que fossem reais. Quero os livros rasgados, os cheques dobrados, a gravata apertada, asfixiando minha liberdade. Quero doenças, enchentes, problemas, para que possa ter razões para continuar lutando. Quero causas plausíveis, razões pelas quais viver.
Quero marcar a pele com tinta, com símbolos aleatórios das tribos de ninguém, quero marcar a carne com ferro em brasa, com um sinete próprio, para mostrar que só eu sou meu dono. Quero a gaveta vazia, a casa vazia, o feixe de luz iluminando a mesa. A mesa cheia de contas pra pagar, contas atrasadas e nenhum puto no bolso. A faca de prata, imaculada, sobre a pia, clamando por ser usada em qualquer objeto que seja, seja a carne morta, seja a carne viva.
Quero marcar a carne aleatória com símbolos que mostram que eu sou seu dono. Quero a tinta nos cheques, pagando por trabalhos que nunca fizemos. Quero a corrupção, a falcatrua, os erros de todos e de ninguém. Quero deixar de lado quem importa, quando importa, porque importa, como importa e o quanto importa, porque de importância já estou cheio. Estou cheio de me importar com quem não se importa com nada ou ninguém, e com quem se importa com o que não tem importância nenhuma. Endeusam o absurdo, cobiçam o irreal, desejam o impossível e se importam com irrealidades.
Quero a mudança, aquela que vira tudo de ponta cabeça. Aquela que virá, disfarçada de calmaria e que derrubará quem nunca esteve preparado. Aquela que me beneficiará apenas por não estar beneficiando ninguém. Quero a morte de quem um dia desejei, mas não a morte carnal e sim a mental. Aquela que apagará de vez as influências que estes ainda poderiam me causar.
Quero causa e razão, para abandonar minhas vestes débeis e minha débil mente. Quero deixar de ser esse débil mental que acredita em risos e sorrisos, em doces palavras vindas das bocas alheias, das bocas que nada têm a dizer de sério, de pessoas que nada têm a ver com o que me cerca e que insistem em palpitar nas coisas que me afetam diretamente, nas coisas que fazem meu coração palpitar.
Quero tudo, quero nada, quero o mesmo que ninguém mais quer. Quero ser o que ninguém quer, meus desejos encarnados nesta terra desolada. Quero minha mente livre pra sonhar com quem eu quiser e meu coração inerte, sem bater por ninguém mais, pois todas as vezes que ele bate, o maior ferido sou eu. Quero o total domínio de meu ser, me tornar outra vez o Deus pagão que outrora fui, o animal carniceiro, o demônio cruel e sanguinário, a força irrefreável e o dano irreparável. Quero ser morte, quero ser vida, pois o que realmente eu queria, era deixar de ser só mais uma opção e me tornar algo único. Quero reinar por sobre as vontades de todos que me cercam, por sobre essas verdades ferinas. Quero ser um com o todo e que todos sejam apenas um pouco do nada que meu peito habita. Que todos sejam um pouco como eu, um pouco banal demais.
Quero ser rei de uma terra desolada, prestes a ser semeada com um pouco do que há em mim, e que nesta terra nasçam árvores negras, podres e retorcidas, cujos frutos saciem a vontade dos outros por um pouco de desumanidade.” – C. J. Amorim (02/02/12)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Hiato Silencioso

"Hoje, depois de tanto tempo em silêncio, ouvi novamente aquela voz. Aquela, que me trouxe alegria, que me causou tristeza e cuja única certeza que tenho quando a ouço é que ela tentou, e muito, me enlouquecer. Mas acho que me tornei imune. Sabe, não sinto mais falta de ouvir esta voz... Não me traz mais alegria, tristeza ou o que for e, ultimamente, anda me transmitindo um certo ódio. Mas não aquele ódio que venero, que aprecio. É um ódio ruim, ruim mesmo. Um ódio proveniente de alguns ferimentos causados por esta voz, ferimentos que não açoitam apenas a mim...
Não diretamente, pelo menos. Atingiu alguns que me cercam. Alguns que prezo e quero bem o tempo todo. Ferir estas pessoas é pior do que me ferir. Muito pior. Eu suportaria ser ferido mais um pouco por esta voz, mas quando não sou o único a ser atingido, a coisa muda completamente. Quando sou ferido diretamente, converto meu ódio em criação, mas quando apenas alguns fragmentos me atingem, só posso lamentar.
Esta voz veio, como sempre, demonstrando entusiasmo, querendo parecer interessada, mas, depois de tudo que fiquei sabendo, não dei ouvidos a ela. Respondi apenas o necessário e tratei de ir ouvir outras pessoas e outras canções, algo que me trouxesse o que desejo e não só a ilusão que esta voz me transmitia...
E esta voz silenciou-se e não mais tentou me chamar a atenção, pelo menos não até agora... Nunca se sabe como será o dia de amanhã, né? Mas, se vier, tentarei ser o mais sincero que puder e me manter o mais distante e consciente o possível... Ao contrário desta voz, eu sou verdadeiro, ou pelo menos tento ser na maior parte do tempo.
Lembro-me do quanto quis bem esta voz. Do quanto quis ouvi-la pelo resto dos dias que me restam e, sinceramente, ando meio confuso em relação a ela...
Não sei se quero ouvi-la tentar se retratar, ou até mesmo ser a mesma de sempre, aquela que não tem nada a acrescentar e que encara a realidade com falso deboche, tentando se mostrar superior e ser o centro das atenções... Não sei se quero ouvi-la, talvez a queira completamente muda. Creio que quero ouvir apenas mais algumas vezes, soluçando de tristeza, de arrependimento por tudo o que fez, por não ter tentado mudar, por ter sido completamente imbecil. Soluçando porque a fiz sofrer..." - C. J. Amorim (21/11/11)