domingo, 29 de janeiro de 2012

Viciado

Turve de branco o vermelho de meus olhos
Turve de sangue o álcool que em minhas veias corre
Tinja de limpo o sujo corpo meu que morre
De cirrose, câncer, lepra, de banais acontecimentos
Acontece, minto, e oculto a causa real
O culto, a casa irreal
A morada da inverdade subjetiva
Querida, requerida
Para sermos do anormal
Sermos doando o mal
Àqueles que queríamos bem
Bem casados, doces traidores
Das núpcias, o fratricídio
Das lúdicas, o homicídio
Das fétidas, o suicídio
Idílico...
Intervenha e venha, atire-me realidade
Cuspa em mim, de verdade
Saliva de fumo mascado,
Mesclado, mascarado,
Disfarçado de verdes lembranças.
Ganância, por tudo, por todos
Impera em meus membros dementes
E abraço, cleptomaníaco,
Aquilo que eu nunca tivera.
Roubei a luz das estrelas, para iluminar teu quarto.
Roubei a luz das estrelas e iluminei teu retrato.
Roubei um quarto das estrelas e fiz com elas um retalho
Para borrar tua maquiagem com éter para te entorpecer
E te ter...
Éter é ter que ir embora antes de ver teus olhares
Éter é ter quem, embora, não queira trocar olhares
E me vejo entorpecido das drogas que me foram cuspidas
Que me beijam, doces, livres, cúpidas e entorpecidas
Te beijo, com éter nos lábios, pra te viciar em mim.
Te beijo, com éter nos lábios, pra ter-te, meu vício sem fim
Te beijo e, baixo, sussurro, o que quis ouvir de quem foi
Foi um dia o pouco que um dia eu quis ser
De quem um dia quis te ter.
Turve de vermelho teus lábios, e beije os meus de éter molhados
Turve de preto teus olhos, e olhe os meus de cinza esgazeados
Turve de escuro o teu quarto, para que minhas estrelas o iluminem
Turve nossos corpos com as cores um do outro, para sempre
Paleta de cores lascivas, dos pintores que nunca fomos
Das pinturas que nos consomem...
Turvos de branco, meus olhos não mais vêem genocídio
Turvo de sangue, meu copo, não mais deixa-me embriagado
Saudades de ti ao meu lado.
Saudades de meu pobre fado.
De sozinho me entorpecer
Com as drogas que você traficava
Quando trafegava em meus desejos.
                                                                                              Um Fauno (17/01/12)

sábado, 28 de janeiro de 2012

Quites

Sobre meus ombros deitam-se cabelos
Mas não os meus e nem os de quem quero
São fios que exalam dor. Me desespero
Pois vi-os antes em meus pesadelos.

Da dor dessas madeixas, me apodero
E logo sinto a terra em meus joelhos
O mundo já não ouve meus apelos
E inerme, enfim, por meu ocaso espero

Junto ao meu corpo, um outro corpo morre
E com meu sangue, um outro sangue escorre
E a ironia cobre-nos veloz.

Pois minhas entranhas tornam-se bainha
Deste soldado que também definha
Tornando-se o algoz de seu algoz.
                                                                                              Um Fauno (22/09/10)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

De Agora em Diante

“E mesmo depois de tudo o que eu disse, eu ainda me sinto incomodado. Livrei-me de ‘alguéns’ que me faziam mal, livrei-me de alguns, livrei-me de ‘algos’. Livrei-me de algoz. E, ainda assim, me sinto incomodado.
Se vejo os olhos, o rosto, os cabelos, sinto-me na obrigação de chamar a atenção, e eu realmente faço isso por impulso. Se fosse conscientemente, eu não o faria. Ao invés disso, sairia, tomaria um ar, espaireceria e deixaria o coração voar longe, longe das besteiras desses fracos sofreres.
‘- Poxa cara, acabou, e foi você quem quis assim e ainda assim não se conforma com isso?’
Irônico? Não, apenas humano...
‘- Põe isso na sua cabeça cara, acabou!’
Não, não acabou. Não se pode acabar com algo que nunca sequer começou...
Por muito tempo eu andava sofrendo o sofrimento dos outros e esquecendo-me de viver meu próprio sofrer e isso andava me corroendo. Eu fui muralha, pra que os outros pudessem se apoiar. Eu fui alicerce para que pudessem se reerguer. Eu fui a mão estendida pra que pudessem ter com quem contar. E esqueci-me de sofrer o meu próprio viver.
Entre tantos e tantas que me cercavam, tive minhas preferências, as dores que mais me cativaram, e eu olhava para elas com certo carinho. Eu queria abrandar essas dores, utilizando de minha experiência em driblar sentimentos. Eu queria aplacar essas dores, utilizando-me de meu próprio corpo, das palavras que de minha boca fluem, do meu sentir, do meu pensar. Mas não fui o suficiente. Na verdade, eu não fui quase nada...
E quando me somem da vista os donos dessas dores, meu ser volta a trabalhar em comunhão. Eu, que fui lacaio, servo de vossas vontades, por prazer próprio, me vejo livre de tanta imposição. Livre, mas não totalmente. Ainda sinto vossos chamados e sei que posso cair na tentação de atendê-los. Mas até quando? Até quando estarei aqui quando precisarem de mim?
As coisas estão mudando. Pessoas estão se afastando, rumando seus próprios destinos. Pessoas estão vivendo seus próprios caminhos, e estes não mais se cruzarão. E quando todos se forem, não demorará muito para se tocarem de que todos estão sozinhos. Sempre estiveram, mas sozinhos em companhia. Eu não, eu sempre tive consciência de que todos estão sozinhos o tempo todo. A gente nasce sozinho e morre sozinho também. Eu tentei deixar de ser sozinho buscando os sozinhos ao meu redor, mas estes não queriam companhia.
Eu quis ajudar e não quiseram minha ajuda, então, o que posso fazer? Por que eu sofro com o sofrimento dos outros, se é o que eles querem sentir? Por que eu estou sozinho? Não, não é por isso...
Eu tentei ajudar, dei forças, opinei, disse até mesmo coisas minhas, do meu íntimo, para tentar fazer tudo voltar ao rumo correto, mas parece que o rumo correto para estes é sofrer calado, longe de quem quer ajudar. Sofrer por escolha própria e negar que se está sofrendo. Sofrer por escolha própria, amando o inatingível. Eu tentei, sério, mas cansei-me e desisti. Não se vence um jogo onde as regras não te favorecem, e as regras desse jogo mudavam a todo instante e nunca houve uma regra que em algum momento me favorecesse.
E eu continuei tentando ajudar. Eu fui muralha, pra que os outros pudessem se apoiar, mas estes só me picharam, me derrubaram tal qual em Berlin, mas não por unificação, apenas por diversão, pelo prazer de permanecerem sozinhos. Eu fui alicerce para que pudessem se reerguer, mas escolheram passar com seus tratores insensíveis por sobre minhas estruturas e sequer plantaram um jardim para meu sangue nutrir. Eu fui a mão estendida pra que pudessem ter com quem contar, mas só se utilizaram de minha força contra mim, utilizando leis físicas para que pudessem me jogar pra baixo e me fazer de escada.
Mas, então, abri os olhos e vi que meu caminho estava cheio de empecilhos, de pedras, de ervas daninhas, e decidi que de agora em diante, eu vou cuidar da minha estrada, pois se ninguém olha por mim, deve ser porque eu devo aprender a me virar sozinho. Eu, que tanto gostava de ter gente que falasse ao meu lado, agora penso em apelar para a solidão, para encontrar minhas respostas...
Irônico? Não, apenas humano...” – C. J. Amorim (26/01/12)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Carnal

"Não, não há mais nada a se fazer. A dor permanece, mais forte e vibrante do que nunca. Nunca foi tão forte quanto agora, e, me vejo abandonado, com este buraco no peito que jorra sangue incessantemente... Minhas mãos tingidas de um vermelho quente não me deixam mentir. Eu tentei, tentei mesmo e por muito tempo aplacar esta dor, preencher este vazio, mas a carne lacerada não mais compõe esta parte de meu corpo. Pedi, gritei, supliquei por alguém que pudesse exterminar essa dor, que pudesse dar um jeito de me fazer completo novamente. Mas foi em vão. Ninguém pôde me ajudar, ninguém pode me ajudar. Tentei esquecê-la, tentei deixar de lado, mas, como um parasita, pregado ao corpo de um hospedeiro frágil e incapaz, continuou me sugando e me chamando a atenção.
Desviar o olhar também se mostrou ineficiente. Todas as vezes que revia a causa de tanta dor, meu corpo enfrentava um frenesi estático, espasmos violentos, como se fosse uma epilepsia induzida. Chorava de raiva, chorava de dor. Urrava de dor. Revia e sofria, lembrava e lamentava, e, agora, nada mais posso fazer. Meu cérebro utilizou todos os recursos possíveis para afastar as causas dessa dor. Simulou morfina, anestesiou-se em vão. Afastou as causas de tanta dor, turvando meus olhos com um negror profundo, negror que me causava medo. Me lembrava a morte... E, agora vejo que é isso que me espera, a morte, por uma causa ridícula.
Tentei lutar, tentei enfrentar, mas meu corpo estático, cravado no solo, me impede de levantar. Este buraco em meu peito me impede de levantar, esta hemorragia negra me impede de lutar, este negror induzido me impede de raciocinar. Meus membros rastejam em vão, buscando separar-se de meu corpo inutilizado. Meu corpo... Pensei que não seria afetado por coisas tão banais, mas agora vejo que o maior danificado foi ele. Não deveria ter me exposto tanto... Fui meu próprio algoz, por não ter tido cuidado, por me achar forte e confiante demais. Mas, então, como uma lança arremessada contra mim, chegou de repente, atingiu-me e me derrubou. Cravou-se em meu peito, cravou-me no chão. Fez jorrar, fez sangrar, fez sofrer, enegrecer. Banhou a vegetação com nutrientes impróprios. Tingiu de vermelho o tapete verdejante. Deixou-me oco, seco, sem fluído vital. E agora clamo por minha morte, pois clamar por alguém que me salvasse foi em vão.
Mas, num último suspiro, num último arfar de meus pulmões danificados, urro em meio a essa guerra sem fim. Urro em meio aos corpos que combatem, em meio ao retinir do aço, em meio às fagulhas de metal incandescente. Clamo por um soldado, clamo por um companheiro. Não um companheiro para morrer junto a mim, mas um que possa aplacar minha dor. Os uniformes, difusos, me confundem mais e mais. Não sei com quem posso contar e meus gritos são abafados pelas explosões guturais ao meu redor. E, ainda assim, não paro de lutar. Atinjo a todos que estão no meu alcance. Derrubo para que tenham o mesmo fim que eu. Já que não posso mais levantar, ninguém continuará lutando enquanto eu viver.
Por isso peço que alguém, de uma vez por todas, arranque ou crave de vez essa estaca de ferro que jaz em meu peito." - C. J. Amorim (15/11/11)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Ávido Afinco

A prole infame de minha mente subjetiva
Segue e domina os campos toscos de meus dedos
Fazem e fogem, as palavras, bruma viva,
Compõem frases, versos de sonetos tredos

Denotam odes de má fama cognitiva
Das oferendas de sinapses de medos
Consomem todas falhas de ácida e objetiva
Trama de impulsos voluntários, vãos, azedos

E ainda gozam minha angústia solitária
Não transpassando a sua vontade intransferível
De ser também um verso pobre de um poema

Colidem tácitas com a ávida e precária
Vontade cega de minha prole intransponível
De dominar o falso afinco de um dilema
                                                                                              Um Fauno (19/10/09)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Insano Ensaio

Suja o meu sangue, esse cemitério
Sublimam ossos
Seu ceticismo assiste sanidades
Surgindo sérias
Singram meus sonhos pelos seus segredos
Subitamente
Seguindo síncronos

Seiscentos séculos seguiram ceifadores
Sumindo astutos
Singrando sobre sangue sujo, seco e cético
Sublimam sonhos
Ceifando, súbitos, suas sóbrias santidades
Subitamente
Seguindo insanos

Meus sonhos sujos surgem sobre santidades
Insano ensaio
Assincronia solitária, seca e sóbria
Some assustada
Sangrando cética, sublimando ceifa sônica
Subitamente
Seguindo astuta

Sônica e única, solitude assustadora
Nos ensurdece
Sério e assíncrono, nosso são cemitério
Sete segredos
Somem sangrando, sem ceifar seus sentimentos
Subitamente
Seguindo sólidos

Sentindo insólito, sou seu súbito senhor
Sigo ceifando
Surjo sujando seus anseios assistidos
Sigo sumindo
Sobre as saudades, assustadas, desses santos
Subitamente
Seguindo séculos

Sua sapiência some e segue meus segredos
Sábias escolhas
Escutam séculos sangrando subitamente
Surdos suspiros
Maçantes sentimentos insignificantes
Subitamente
Seguindo sujos

Sete senhores ceifam, sóbrios, seus segredos
São cemitério
Surge, assistindo sentimentos dissipados
Se sublimando
Cético, sonho e sumo só ceifando assíntotas
Subitamente
Seguindo sóbrio
                                                                                              Um Fauno (16/11/09)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Chaga

Quase meia-noite e,
Os números dançando na cabeça
Há muito a tinta desistiu de desenhá-los
A mesma tinta negra que pintou teus olhos
Pintou teus olhos dentro de minha mente
Deixo a TV ligada só pra ter trilha sonora
Só reportagens que não fazem falta
Jornal da noite
Jornada à noite
Gerados sonhos loucos que me fazem são
Vejo a TV querendo te ver
Mudo o canal, querendo o que é não
Cesso o som querendo canção.
Querendo Chanel
Um quarto de hotel
Um copo, conhaque
Cigarros de fel
A tinta encarcerada
Chorando, querendo sangrar
E eu aqui, querendo me embriagar
De ti, querendo
Querendo te provar.
Te provar que errei, insistindo em acertar.
A insônia baila séria,
Me toca, me faz delirar.
A distância me fez cético
Em mim não posso acreditar
Escrevo, oculto na sombra
De todos que foram deitar
Querendo chegar em teus sonhos
Ser teu enquanto és minha,
Pois dormindo sei te tocar
Melodia do drama da vida
Das vidas que quis ceifar.
E visto outra vez a face,
A face que ninguém quer olhar:
Do mesmo, o igual, normal, sério
Do cidadão exemplar.
Minha face real, tu conheces
Dia primeiro ela se fez presente
E eu, me tornei indecente
E eu, te tornei descrente
Meu sonho se fez indigente
Meu peito aberto ainda sente
A dívida que tenho contigo
O diálogo que há tanto espero.
Semana que se fez século
E a dúvida me faz pensar
Estou a te amar?
Quase meia, a noite, uma droga
Que me permite delirar
A grana me compra e me afasta
De quem quero, de quem tenho
Danço enquanto chovem as horas
Danço enquanto chove lá fora
Danço enquanto chove aqui dentro
De teus olhos no meu ego
Queria eu estar cego.
Média noite, meia vida
E eu abrindo a ferida
A chaga que quis calar.
                                                                                              Um Fauno (06/01/12)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

No Fim da Estrada

Cessa o fato
Encerra-se este ato
Imperdíveis as noções despertas num desacato

Findo o trato
Segue-se outro ato
Caminham solenes até o novo aparato

São sempre as minhas coisas
e eu não posso fazer nada
Sempre as mesmas coisas
me esperam no fim da estrada

Chega o fundo
Desperto o mundo
Devora sério os sentimentos que abundo

Cessa o fato
Segue-se outro ato
Caminho solene e vejo nódoas no aparato

São sempre as mesmas coisas
que me esperam no fim da estrada
Sempre as minhas coisas...
Eu não posso fazer nada!

Então agora,
Noite que me devora
Deixa as minhas nódoas e, lépida, vai embora

Findo o mundo
Chego até o fundo
Caminho solene ante as coisas que abundo

São sempre as mesmas coisas
sempre esse mesmo nada
Sempre são essas coisas
que esperam o fim da estrada

Agora mundo
Destrua tudo que abundo
Liberta essa tua cólera e encerra-me em sono profundo

Some o fato
Feito novo contrato
Destrói, finalmente, as noções de vil aparato

São sempre as mesmas coisas
e eu não posso fazer nada
Sempre as minhas coisas
me esperam no fim da estrada.
                                                                                               Um Fauno (22/06/09)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Prazer Bélico

Como me alegro em ver-vos destroçados
Soldados da batalha que não presta
Que vêm de bom grado e fé honesta
Alimentar meus filhos desgarrados

Tornai-vos, outra vez, atordoados
Servir de alimento é o que vos resta
Um matadouro serve a nossa festa
Eu brindo, a todos vós, podres soldados

Em rios de sangue, embriagar meu ego
Em olhos secos, ver a quem me apego
A refeição da terra, os corpos mortos

E quando terminado este banquete
Tornar-vos como um todo, um só joguete
Voltar a saciar meus sonhos tortos
                                                                                              Um Fauno (07/07/09)

sábado, 14 de janeiro de 2012

Dos Corvos, Aos Corvos

I
Havia de aparecer
Um devaneio, um momento
Gerado, sem perceber,
Indiciando um talento
Negando nosso fomento

Mas, libertou-se de ser
Unindo-se ao firmamento
Nos condenando a viver
Intrínsecos em tormento
Nas vagas de um pensamento

II
Hostilizando ao dizer
Um juramento de glória
Gerou-se, com seu poder,
Inteira e aleatória
Nossa lembrança, simplória

Mesmo fadados a crer
Unicamente em história
Não hemos de esquecer
Incólume trajetória
Nos campos de vil memória
Um Fauno (03/09/09)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Extinguindo Esperanças

Indiferentemente indescritíveis
Indeléveis hinos hesitam expirar estranhezas
Esperam extremos e excitantes erros
Exterminam honras e erradicam exímios homens
E espalham injúrias insanas
E incógnitas impossíveis,
Indecifráveis
                                                                                              Um Fauno (09/06/08)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Um Dia

É nessas vidas frágeis que unimos
As nossas também frágeis pobres vidas
E, um dia, finalmente assim unidas
Fazem pensar porque não desistimos

E tudo consolida o que sentimos
Quando pensamos que foram vencidas
Um dia, as nossas dores suprimidas,
E falsa e friamente, enfim, sorrimos

Um dia, esta união tão inocente
Recai nas nossas vidas, consciente
De que fazia mais do que valia

E então, morremos sóbrios de verdades
Que dizem que não éramos metades
Do todo que compõe só mais um dia
                                                                                               Um Fauno (01/12/09)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Carta Rósea

“Lacero a carne e deixo o vermelho correr. Há quanto tempo precisava ver isso novamente. Estanco o corte só para poder deleitar de meus últimos momentos de sanidade, até que o branco das paredes e da camisa de mangas longas se torne minha única cor, a última que verei, a que me cobrirá até o fim de minhas eras. Sem mais vermelho para mim. Sem mais tinto ou bordô para mim.
Com os olhos esgazeados, devido ao pouco rubro que percorre meus dutos rotos, tento enxergar razão nas dispersas nódoas do chão. Tento enxergar razão entre os vãos da cerâmica da cozinha. Busco informação na sujeira, nos insetos e no belo e amargo sangue que derrubei para dar nova cor ao meu redor. Do cinza concreto da vida eu já estou cansado. De cinza quero apenas os restos no meu cinzeiro e aquelas que meus antepassados deixaram, em suas urnas mortuárias. Mas nem cinza deixarão pra mim, e o branco da fumaça ébria também me será negado.
E enxergo. Dentre as muitas imagens na minha cabeça, consigo distinguir algumas poucas constelações brilhando no chão e no fundo de minha mente ludibriadora. As gravo para que, quando o branco me cercar, no negro de meu fechar de olhos eu possa as ver nitidamente. E olho calma e profundamente pra esta tela pelo aleatório desenhada por intermédio de minhas tintas e que, com o andar dos insetos e com o escorrer de meu sangue, se metamorfoseia em novas imagens. Dentre elas, rostos de um passado tão presente que me nega meu próprio futuro. E loiro, e negro, e azul, verde e vermelho, e marrom, carmim, violeta e tantas outras cores, unindo-se num arco-íris de uma só cor, uma cor imunda que não sei nomear. E até mesmo essa cor imunda irão me negar.
Fecho os olhos, respiro fundo. Abro os braços, respiro o mundo e, o aroma acre deste mundo que me rodeia, guardo nas narinas e deixo que seja pregado em meu corpo, qual uma chaga, pústula que não se fecha. Abro os braços como um sinal de minha última liberdade, de minha íntima vontade, e deixo o estancamento de lado por um instante e apenas. Bambeio, vacilo e quase caio antecipadamente. Cairei apenas quando for necessário, no último leito que me for reservado.
Privado de minha visão, ouço com mais clareza e o coma profundo no qual me induzi, o cômodo insano no qual me instalei, é rompido por tenazes de carne e cordas vocais a bater e vibrar. Não atenderei, que me peguem à força. Que me levem à forca por não querer me entregar. Eu até facilitei, tirando minhas próprias forças, deixando minha vida correr pelo rio vermelho que já cruza as frestas da porta da rua e denuncia minha atual condição.
Soldados brancos invadem meu lar, glóbulos brandos invadem meu olhar. As mangas longas são enfim instaladas, quebraram minhas asas. Quando cruzam meus braços me tiram da posição de salvador e meu torniquete mal feito cai numa queda infinda, livre de suportar a pressão do pulsar vital. Mancho de sangue a camisa-de-força, mancho de lágrimas a pintura do chão. Mancho de dor os soldados sem cor. Mancho a marcha de retrocesso à sanidade. Lucidez neste momento já não mais adianta. Estupidez neste momento não mais adianta. Adiantam os passos e me enclausuram em branco. Limpam meu sagrado vermelho, suturam meu punho aberto, estancam meu pulso descompassado e, outra vez tudo está bem. O mundo se vê livre de um odor desagradável, o cheiro nauseante de um desprovido de esperança.
Sem cor, sem odor, sem identidade, trancado em mim mesmo, coberto de branco. Sem dor, sem temor, trancado em brando horror, coberto do pranto que brota de ninguém. Sem remédios, medicina que nada cura ou curaria, espero o fim desta hora interminável que nem o tique-taque do relógio denuncia. O único som é o da respiração, o único dom é o da restauração e é assim que minha mente tenta trabalhar, restaurando os poucos fios de sanidade que lançavam acordes dissonantes dentro de meu crânio e caixa torácica. E ela consegue...
A sanidade volta? A sanidade volta sim, mas sem a esperança de se tornar insano novamente, sem a liberdade que a insanidade proporciona. Sem a falsa liberdade que o avesso proporciona. Sobriedade é a única droga que me servem, e em intermináveis porções, mas dela não consigo me embriagar. Ela me enoja. Sinto saudades de minha santa sina, uma sina insana assinada em sangue. Sinto saudades de quando a insanidade era opcional, de quando tudo não passava de um sonho ideal e das cores e odores do mundo real.”– C. J. Amorim (11/01/12)

domingo, 1 de janeiro de 2012

A Todo Instante

"Acordado enfim, tenho motivos para prosseguir. Minhas reminiscências desses poucos minutos de uma loucura de discórdia me fazem prosseguir. O tabaco e o álcool ainda permanecem no meu corpo, temperando minhas refeições, com seu sabor intragável, tão intragável quanto meus erros de ontem, mas nunca sequer tocaram meus neurônios. Eu estava consciente nesses momentos de loucura, participando para que a loucura fosse feita, para que fosse concretizada como a chave de todo o momento, como o ponto alto, a dose crucial.
Eu estava consciente enquanto errava, e não botarei a culpa nas adversidades que eu mesmo me proporcionei. Eu estava consciente, fiz tudo imerso em sanidade, buscando apenas embriagar meu coração e libertar as imundícies que nasciam em minha mente. E o fiz. Errei, mas o fiz.
Liberto desses ideais absurdos, buscando retiro e abrigo em corações que quis guardar, prossegui. Quem eu queria não estava ao meu redor e fiz o monstro nascer em mim novamente. Brotou, no último dia do ano, apenas para mostrar que não estava morto. Abracei sua causa, abracei a mim mesmo. Fiz, errei, libertei, prossegui, vivi mais uma vez, por apenas algumas horas. Me dominou, mas não totalmente, ainda queria você ao meu lado, mesmo estando com outros ideais estampados na face. Queria e ainda quero, e quando te vi chegando, escondi as presas, guardei as asas e afastei-me de quem eu tinha em meus braços. Mas quando me fiz presente ao seu lado, fui rechaçado.
Confuso, voltei às atividades 'normais', aquelas que havia escolhido para esta noite gloriosamente inglória, e ainda assim não me sentia satisfeito, saciado. Meu desejo de você não me deixava confortável. Trocaria toda a noite de ontem por 10 minutos ao seu lado, olhando nos teus olhos, tocando tua carne, sentindo teu perfume, mesmo sem beijar teus lábios e é por isso que eu voltava para o teu lado a todo instante. Até ouvir teu veredito.
As palavras que ouvi saindo de tua desejada boca martelavam a todo instante a minha mente e o eco das pancadas retumbava por meu peito dilacerado. Confuso, tornei-me estático, liguei no automático e segui, dramático. Até que o corpo falou mais alto. O físico, a dor de todas as eras, as juntas podres e rotas, a vontade de esquecer como se é andar, a busca por um leito no qual pudesse descansar minha cabeça confusa e sonhar inverdades, sonhos drogados nos quais faço apenas o certo, nos quais sou e não sou tudo o que odeio e venero. Mas minha ida para casa me fez pensar mais e mais em tudo o que havia ocorrido nesta insana noite e agora, sóbrio das mentiras que usei, vejo que permaneço confuso e não sei se estou arrependido. Devo estar, pois não me sinto assim há tanto tempo que creio que nunca me senti assim anteriormente.
Apenas sei que te quero. Não sei como, não sei quanto, não sei se devo ou mesmo se posso, apenas sei que te quero. Te quero bem, feliz, liberta de toda a dor, de toda essa confusão que nós nos proporcionamos. Somos dois dançarinos, fazendo movimentos aleatórios num vasto salão vazio, salão o qual se assemelha com as palmas de nossas mãos. Só espero que quando um de nós dois decidir cerrar o punho, o outro não se machuque e possa encontrar frestas pelas quais possa escapar, quando não mais desejar viver sob o toque do outro.
E, sentindo saudades da névoa branca que eu cuspia à minha volta para poder me esconder do resto do mundo, da sensação de ser dono da realidade e dos negros olhos que um dia me fitaram com a mesma vontade que habitava os meus próprios olhos, termino esse texto querendo que os sentimentos que habitam meu peito não terminem jamais." - C. J. Amorim (01/01/12)