quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Útero Moderno

Ando cansado dessas cenas medíocres,
Desses roteiros infantis e grotescos
Dessas vitrines enfeitadas com mil arabescos
Desses enredos nada profissionais
Dessas tramas deveras sensacionais
Do sensacionalismo barato.
Bastam lágrimas para despertar minha ira
Lágrimas falsas que imitam dor e alegria
Bastam glórias para atenuar dissabores
Flores mortas em tumbas de ditadores
Cheirando a plástico falso, a petróleo subjugado,
Cheirando a hipocrisia, mentira e esquizofrenia,
Cheirando à podridão.
Diante de médias medidas,
Sem qualquer extremo ou delimitação,
A fúria brota e sangra de meus olhos
Sob a alcunha de lágrimas gélidas
Mas que não tocam o chão, mas que não tocam ninguém,
Pois nenhuma lágrima, provinda de um homem real,
Pode tocar a alma de um falso imortal,
Pois nenhum sentimento, no mínimo brutal,
Pode tocar um coração passageiro.
O pensamento voa livre, flui por entre meus dedos,
Se torna poesia, ritmo, fábula, canção,
Mas a arte, por mais medíocre que seja,
Não vive por mais que horas neste mundo devastado
E o silêncio se torna o canto das multidões
E a catástrofe torna-se o cotidiano das legiões
E a modernidade se torna passado em segundos ilegais
Em segundos sinápticos, em segundos cardíacos,
Em segundos banais.
Por isso peço que me mandem de volta
Que me mandem de volta para o útero materno
Onde dançam os sonhos destinados ao viver
Onde a pureza dos fetos ignora o “não-nascer”
E o morrer dos desejos, nas mãos dos normais.
Onde são sábios os infantes, ignorantes do sentir,
Os filhos da impávida fome de ser,
Pois fome primordial, sentimos só por não ter
Consciência da avidez que as mandíbulas famintas
Devoram em horas, só pra se divertir.
Mande-me de volta para minha terra natal,
Para o tempo em que as horas eram só divisões
E não vidas e vidas jogadas, deixadas ao léu.
                                                                                              Um Fauno (06/12/12)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Fênix

“Ânsia, é tudo o que sinto. A maldita vontade de vomitar tudo de negro que ainda existe em mim. A negra vontade de despejar pro mundo toda a maldita vontade de extinguir seres que em mim ainda vivem. A maldita vontade de me extinguir. Mas, há tempos eu já estava extinto e não tinha percebido...
A vida pulsa em minhas veias novamente e é ela que me faz sentir essa ânsia por vomitar tudo o que me matou e que fez eu me ocultar por algo que jurei que me faria viver, que eu acreditava ser uma vida verdadeira. Vestido com essa capa quase etérea que me disfarçou por tanto tempo, eu já havia me esquecido do tudo de ruim que em meu ser habitava. A vida outra vez pulsa em meu denso coração, no vazio oco dos átrios que retumbam com um grito solitário e insólito, o urro da desolação.
A desolação ainda habita meu ser, a vontade gigante de extinguir o que de humano ainda existe em mim, o que de humano me foi imposto e o que de humano me foi depositado. Não há mais espaço para humanidade na Planície Gélida. Não há mais espaço para humanidade nesse renegado coração e apenas peço que não mais exijam humanidade de alguém que, por opção, escolheu deixar de ser humano.
O que andei vivendo me fez esquecer de minha própria solidão, da solidão que nos acompanha em todos os momentos, da solidão que nos mantêm vivos, da solidão que nos faz pensar e querer continuar sozinhos. Em tantas ocasiões preguei minhas palavras, palavras de solidão, minhas verdades, cruéis, reais e em mim sempre presentes e não consegui crer nelas. Não consegui crer em mim mesmo. É incrível como conseguimos aniquilar nós mesmos por outrem, por quem a gente quer manter por perto. Mas ter alguém tão próximo, não faz parte da solidão.
Somos uma matilha de lobos única, uma matilha de lobos solitários cujas mães abandonaram para viverem num inferno gélido, acompanhados por gêmeos tão imundos quantos nós mesmos. A diferença é que alguns animais percebem a realidade enquanto outros desenham com carvão em pedras que serão extintas pelo tempo. A diferença é que nem todos são lobos. Alguns apenas pensam que são, mas não passam de homúnculos manipuláveis, que temem o inverno e o inferno.
E eu, sou novamente um lobo. Eu tinha me ocultado por uma diáfana capa em forma de gente, tinha me preocupado em ser mais um verme sedento por calor, ser mais um amontoado ignorante de sinapses imperfeitas, em busca de uma meta para alcançar. Meu maior pecado foi abandonar o Caos por uma ilusão que me fizesse sentir o doce sabor do carvão que desenha torres distorcidas em pedras de sal e sabão.
Mas a ilusão é como um vinho: te deixa alegre, te faz sorrir, te faz sentir como só mais um numa multidão enlouquecida, que clama por mais sanidade, por mais liberdade e por mais prisão, mas, cuja ressaca é a realidade. Quando você estiver sozinho, na intimidade de suas próprias vísceras, você vai regurgitar realidade sobre toda essa ilusão e verá que o púrpura turvo não é a cor do manto que você veste.
O mundo é negro. Tem cores em todos os lugares e é por isso que é um lugar negro. É o ermo dos sentimentos, a ruína dos pensamentos, o fim da glória e o manicômio dos sãos. O mundo é o lugar dos injustos, dos impuros e dos insolentes. O mundo é o lar das abjeções e é por isso que sou parte do mundo. Quando se instala um filtro belo sobre um mundo negro, o mundo corromperá seu filtro, mas quando seu filtro está sujo pelo seu próprio sangue, seu filtro corrompe o mundo e, quando se corrompe o mundo é que se consegue habitá-lo. E meu mundo foi corrompido.
Quando eu tinha realmente a certeza de que nada mais poderia corromper meu próprio mundo, surgiu uma nova cor, uma cor que eu nunca antes havia visto e eu, tentei corromper essa cor, torná-la apenas uma parte a mais em meu mundo. Mas o contrário aconteceu e eu fui corrompido e, por um breve momento de minha existência, eu inexisti, em prol de algo que eu considerava sagrado em meu próprio mundo. Mas não mais.
Novamente, o lobo corre solto, nos Campos Cortantes da Insanidade e não há força que possa pará-lo que não sua própria força. Não há força maior que sua própria força, não há vontade maior do que a sua própria vontade, não há nada mais sagrado que seu próprio ser, que a vontade de ver suas patas pousando novamente em um solo conhecido, durante uma corrida incessante pelo fim que ele próprio deseja, de ter o vento passando por sua face como algo tão volátil quanto sua própria existência, de ser outra vez o dominante de um mundo tão vil e cruel quanto ele mesmo.
E não haverá mais ânsia por autopiedade, não haverá mais açoites que cortam carne, ossos e alma como se fosse tudo a mesma coisa, não haverá mais quedas e submissões por algo que não a si mesmo e, não haverá mais dor dentro de seu peito lacerado. O pior caminho para um homem trilhar, é o que ele mesmo escolheu trilhar, mas este é o que lhe trará mais glória e satisfação no fim e este é o meu caminho.” – C. J. Amorim (04/12/12)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sépia

“Com a mão em volta do copo pousado sobre a mesa, ele encarava o revólver quase vazio e o demônio que se sentava à sua frente. ‘Atire’, dizia o demônio, mas ele queria primeiro terminar o que estava bebendo. Minutos a mais ou a menos, não mudariam seu destino.
A foto, encharcada de sangue, mostrava a razão de tudo aquilo: o passado. Ele cria que poderia vivê-lo de novo, mas criaturas como ele nunca mereceram algo tão piedoso quanto um passado tão brando quanto aquele que vivera há pouco. Mas era tarde. O demônio havia voltado pra cobrar o tributo oferecido. A sentença seria executada.
Mas nunca houvera demônio tão piedoso quanto aquele que se sentava diante dele. Ele entendia a necessidade que ele tinha de terminar pelo menos aquele copo, e, logo se serviu também daquele uísque barato. Acenderam cigarros, trocaram algumas palavras, mas nunca tocando o assunto pelo qual estavam outra vez reunidos. Não até aquele momento...
O demônio não pode deixar de notar a fotografia. Pegou-a, e, com um sorriso de desdém nos lábios disse: ‘foi essa a razão de tanto alarde? Foi por isto que você pediu que eu te abandonasse? Foi por isso que você quis viver?’. Gargalhou enquanto se servia de mais um copo.
Os olhos do sentenciado vaguearam por um momento, passando da fotografia para o demônio e deles para o copo e o revólver. Era, era por aquilo que ele tinha desejado viver. Ele mesmo já não sabia se tinha valido a pena. Ponderava sobre o quanto tinha se esforçado, sobre o quanto tinha mudado, sobre o quanto havia feito... Ponderava sobre o quanto havia se sacrificado.
Sabia que não tinha sido em vão. Sentia-se bem relembrando de tudo aquilo, do quão satisfatório lhe havia sido arrancar risos e sorrisos daquela que jazia estática na pequena fotografia. Ele se sentia amado quando estava ao lado dela, sentia-se bem, sentia-se completo e, talvez este tenha sido seu grande erro. Criaturas como ele nunca mereceram algo tão piedoso quanto uma presença tão doce quanto aquela que tivera há pouco.
Ele se sentia mal pelo muito que havia feito. Sentia-se mal por nunca ter sido o bastante. Ele sentia-se novamente aquilo que há muito tinha deixado de ser. Criaturas como ele nunca deveriam tentar mudar sua própria natureza. Ele sabia que uma hora ou outra tudo iria terminar, só não sabia que teria que ser daquela forma e agora, o demônio havia voltado, mais cedo do que ele esperava encontrá-lo. Recebeu-o como a um irmão, como se fosse parte de si mesmo, visto que realmente era.
Seu passado mais remoto havia retornado, fazendo parecer o recente como um sonho desperto, um desejo que se tem, um devaneio. Seu passado mais remoto havia retornado e se tornado novamente parte de si mesmo. A fúria animalesca, o ódio irrefreável, a solidão infindável. No fundo de um copo de uísque, conseguia se ver novamente, afogando-se em realidade, naufragando em sobriedade. No fundo de um copo, cheio de si, ele enxergou o que deveria fazer.
Virou a última dose e aceitou seu destino. O fado era um fardo que não poderia dividir com ninguém. Só ele e sua própria solidão poderiam suportar tamanha desolação. Levantou-se, pegou o revólver e verificou o tambor: uma única bala. Pegou a fotografia e deixou que uma lágrima embaçasse seu sorriso. Posicionou a arma na melhor têmpora que pode encontrar: a direita... Do demônio.
O demônio sorriu satisfeito por saber que o contrato estava selado. Aceitou a bala com prazer. O clique do gatilho estalando tão próximo de seu ouvido o fez gargalhar ensandecido. Era isso o que ele queria: findar com o pacto. Nem mesmo ele aguentava mais viver imerso em tanto desprezo. Nem mesmo ele, o desprezo em carne e osso, conseguia viver imerso em tanto desprezo. Ali, ao lado de quem ele realmente era, sentia-se completo novamente. Com uma bala ricocheteando por sua caixa craniana, sentia-se vivo novamente.
Ele se levantou, apertou a mão de seu algoz e lhe agradeceu, com a mais sincera satisfação. Vestiu o fraque e saiu pela porta da frente, com o sangue lhe escorrendo pela face. Acendeu um cigarro e desceu a rua, assoviando uma canção qualquer que talvez fizesse sentido apenas para ele, e para aquele a quem tinha visitado.
O homem retornou para dentro da casa, retirou a garrafa agora vazia e os copos da mesa e estendeu por sobre ela uma toalha estampada de manchas de sangue, molho e lágrimas. Guardou o revólver numa gaveta e a foto no bolso do paletó. Tirou um cigarro do maço, tragou três vezes e suspirou um nome. Sorriu, chorou, terminou seu cigarro. Alimentou-se dos restos do jantar passado e deixou os pratos sobre a mesa. Era novamente um consigo mesmo. Era, novamente, um com o seu passado. Tinha novamente domínio sobre si mesmo. Tinha, novamente, o demônio como a si mesmo.
Sentiu suas vísceras clamando por novos ares, por sangue pulsante, por vidas, mortes e sinas. Sentiu-se pronto para encarar o mundo novamente. Vestiu a melhor máscara que pode forjar, acendeu outro cigarro e desceu a rua, assoviando uma canção qualquer que talvez fizesse sentido apenas para ele e para o demônio que tinha dentro de si.” – C. J. Amorim (29/11/12)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Névoas de um Quintal Escuro

Eu deito, em meu leito sentindo-me perfeito,
Sentindo-me completo, sentindo-me desfeito...
Desperto, observo as aranhas no teto
E as teias que tecem com meus pensamentos.
A névoa da mente exterioriza-se em vozes
Saídas das têmporas, ouvidos e narinas,
Saídas dos bueiros e becos dos meus próprios neurônios
E formam o quadro que Morfeu espera que eu veja.
O artista sente o quadro ao invés de vê-lo.
O autor sangra o quadro ao invés de pintá-lo.
O homem singra a vida ao invés de atravessá-la.
O homem sente a mente como mente pra si mesmo.
O poeta exterioriza a voz que lhe consome o sono,
A voz que lhe arrebata os sonhos, a voz da qual nunca foi dono,
A voz de seu “sub-inconsciente”, aquela que lhe devolve a vida,
Aquela que quão mais bela, mais faz sangrar as feridas,
A que ele um dia quis não deixar de ouvir...
Ah, a contradição!
É um poço de aflição no qual sempre se sente de tudo!
É força renovada para enfrentar-se o mundo!
É o querer falar mesmo mantendo-se mudo!
É perfeita a situação no poço da contradição
Quando lhe falta pureza e lhe transborda a aflição
É perfeito o ser humano, por ser poço, profundo e vazio,
Que quanto mais se olha pra dentro, mais parece ser louco e frio.
Mais parece manter-se sozinho,
Distante, louco, fraco e escorregadio...
É força, o que todos pensam ser fraqueza...
A névoa adentra novamente meu ser,
Voltando para dentro de seu criador,
O lar de quem nunca viveu, é o lar de quem um dia quer viver
E essa névoa é o que me faz querer ser
Ser novo e de novo o que nunca sempre fui!
Ser o dito, o desdito e o contradito,
O caos que governa meus membros,
Meus ossos, juntas, sentimentos e pensamentos,
Que me faz estrangular-me a mim mesmo, apenas para sufocar a ideia
De que um dia estive livre de mim.
Oh, navegador indecente!
Conduz direto às docas os botes de minha mente!
Oh, navegador indomável,
Guia com sabedoria meu pensamento insondável!
Pois que eu sou meu próprio guia
E jamais teria me deixado abandonar
Por motivo fútil ou reles, qualquer tratamento vulgar,
Apenas por mim mesmo, pra tentar me ludibriar
E, agora, envolto nas névoas de meu próprio ser,
Nos mares revoltos que um dia pude conceber,
Consigo finalmente ver que nunca deveria ter me movido
Saído do local onde sempre estive escondido
E abandonado a origem de meus próprios pesadelos!
O meu lar é minha mente, por debaixo de meus fracos cabelos
O meu lar é minha mente, meu quintal, meu cerebelo.
                                                                                              Um Fauno (20/11/12)

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Cortinas

“’A fumaça do cigarro é tão mais bonita na chuva, não é mesmo?’ disse ela, e jogou a bituca ainda acesa em direção à imensidão. Não esperou resposta. Conservou um sorriso leve e singelo nos lábios e voltou o olhar a noite que os rodeava, com os joelhos abraçados junto ao queixo. Calou-se por alguns minutos, que, para ele, pareceram uma eternidade.
Ele não estava preparado para a pergunta. Ainda estava pensando em como fora parar ali. Fora pego totalmente desprevenido, o que não era novidade, visto que ficava o tempo todo pensando no tempo e em como não tinha tempo para mais nada que não a própria rotina, e este era um dia totalmente avesso aos que estava acostumado. Não sabia quase nada sobre a garota que estava ao seu lado, apenas o nome, o que fazia da vida e algumas informações não muito pertinentes.
Trabalhavam na mesma empresa, em cargos diferentes, porém, no mesmo escritório. Ele, atrás de sua escrivaninha, sempre arrumada, digna de louvor. Ela, atrás dos papéis que sempre se acumulavam em sua mesa, dos relatórios atrasados e desorganizados. Ele sempre pensava em como ela ainda não havia sido mandada embora diante de tantos descuidos. Muitas vezes se pegava pensando nisso, mas, logo despertava e voltava ao seu trabalho. Hoje, por qualquer que fosse o motivo, não conseguia se concentrar. Hoje, o dia parecia conspirar contra ele.
Foi na saída do expediente que ela havia vindo falar com ele. Pediu o isqueiro emprestado dizendo que o dela não estava funcionando. ‘Deve ter entrado água’ disse ela, justificando o pedido. Era bem possível. Já fazia três dias que chovia incessantemente e ele sequer havia visto algum sinal de que ela possuísse um guarda-chuva ou o que quer que fosse que servisse para proteger da torrente constante que assolava esses dias.
Ele odiava a chuva. Dizia que não servia para nada que não fosse atrapalhar suas idas e vindas. Quando alguém lhe dizia que a chuva trazia vida ou que ajudava a manter a vida viva, ele logo retrucava falando sobre enchentes e destruição. A chuva só servia para fazê-lo se atrasar ou até mesmo impossibilitá-lo de ir aos seus compromissos. Não se lembrava de um momento feliz que tivesse passado em um dia chuvoso.
Ela acendeu o cigarro e devolveu o isqueiro com um sorriso de agradecimento. Estavam indo para o mesmo lado, então, ele decidiu chamá-la para um café. Entraram numa lanchonete e trocaram algumas palavras. Há tempos que ele não tinha uma tarde tão agradável, mesmo com a chuva o perturbando. Pagaram, saíram e continuaram a caminhar. O céu cinza estava um pouco mais brando que o habitual, mais semelhante ao tom da diáfana cortina de fumaça que vez ou outra saía de um escapamento ou de uma chaminé de fábrica, logo, ela o chamou para dar uma volta.
Andaram sem rumo, mas com um rumo determinado. Ele sabia que nada estava totalmente nas mãos do acaso. Ela devia ter planos para aquela caminhada. Já devia ser por volta do por do sol quando começou a chover novamente. Correram para debaixo de uma árvore, numa colina um pouco distante da cidade. Do topo dessa colina, podia se ver toda a cidade, tão longe e, ao mesmo tempo, tão perto e ele nem mesmo se lembrava se um dia já havia estado naquele lugar. Perguntou-se quanto tempo fazia que estavam andando, pois parecia que eles estavam tão distantes da realidade mas que tão pouco tempo havia se passado.
A chuva estava forte e as folhas da árvore acima deles quase não conseguia segurar a água que banhava seus corpos ainda engravatados. Algum tempo já havia se passado (‘uma meia hora’, pensou ele) e a chuva não diminuía. Ela sentou-se na terra úmida e ele acompanhou o movimento. Ela tirou um cigarro do maço e o próprio isqueiro. Tentou acender e logo se lembrou que este não estava funcionando. Ele prontamente ofereceu o seu e tirou de seu próprio maço um cigarro pra si. Anoitecia e a chuva começava a abrandar.
Não trocaram nenhuma palavra enquanto fumavam, nem olhares e assim permaneceram, cada um imerso em sua própria bolha de fumaça, em seu próprio mundo, até que ela perguntou: ’A fumaça do cigarro é tão mais bonita na chuva, não é mesmo?’. Ele não estava preparado para a pergunta, então, continuou em silêncio.
Ele geralmente não pensava nas coisas pequenas tanto que até mesmo esquecia-se de que coisas pequenas existiam. Ele pensava apenas no grandioso, pensava como o concreto, que marcha incessantemente rumo ao progresso. Resolveu dar uma folga a si mesmo e parou para pensar na frase solta no ar. Olhou para ela e sentiu-se totalmente hipnotizado.
Queria saber o que se passava dentro de sua mente. Deliciava-se com as hipóteses que perpassavam seus devaneios. Ela conservava um sorriso delicado e estreitava os olhos como que querendo enxergar por trás do fino véu de água que os cercava apenas aquilo que ela desejava ver, o mundo todo que vivia imerso em seus pensamentos. Ele queria ver o mundo todo que habitava os seus pensamentos. Ele queria vê-la desenhando com palavras, tudo aquilo que ele nunca conseguira entender. Ele queria apenas vê-la.
A curva perfeita de seu rosto, o desalinho dos cabelos desgrenhados, as pequenas manchas de água e terra que adornavam suas roupas, lhe pareciam estar em perfeita sintonia com tudo aquilo que um dia ele sonhara para si. Lembrou-se de quando não tinha preocupações, vícios ou compromissos, lembrou-se do quanto era feliz sendo ele mesmo em todos os momentos, sem precisar vestir a máscara plástica e calcificada do bom moço, direito e temente a Deus e às leis morais e éticas. Percebeu o quão diferente era dela e desejou-a por todo o resto de seu tempo.
Pensou novamente no que havia acabado de pensar, em como a queria, em como a desejava e percebeu que estava outra vez se apaixonando. Há tempos já não se sentia assim. Havia prometido a si mesmo que nunca mais se sentiria assim. Olhou para o cigarro entre os dedos, tragou-o pela última vez, e, atirou-o contra uma poça que se formava ali perto, desejando que essa ‘paixão’ morresse como morrem brasas acesas ao entrar em contato com poças solitárias, cheias de frieza e daquilo que nenhum homem deseja mais.
A chuva continuava, agora mais fraca do que anteriormente. Olhou uma última vez para a garota, apanhou o guarda-chuva que jazia esquecido ao seu lado, limpou a terra da roupa e levantou-se. Ela olhou para ele, como que desperta de um transe profundo, totalmente diferente de como estivera há tão pouco tempo. Parecia assustada com o movimento, brusco demais se comparado com o estupor de estátua no qual ela estivera por todo este tempo.
‘Preciso ir’ disse ele e virou-se de costas para ela. Olhou para a chuva e para a noite, acendeu mais um cigarro, soprou a fumaça e percebeu o quão mais bonita ela fica sob a chuva e saiu numa caminhada lenta e tortuosa. Não abriu o guarda-chuva, ao invés disso, desejou que a chuva lhe abençoasse com uma pneumonia ou qualquer outra coisa que o impedisse de ver o rosto de sua ‘amada’ por pelo menos um dia, pensando que um amanhã solitário o faria esquecer tudo o que um hoje inesperado havia lhe reservado. Quem sabe assim, teria enfim um motivo para amar a chuva.” – C. J. Amorim (21/06/12)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Despertar

“Na caminhada escutava meu hino, que reverberava por todas as juntas de meu ser, despertando aquele que nunca fora totalmente adormecido. O hino prosseguia em seus acordes, tornando mais forte a chance de ser pleno novamente, quando, em seu interlúdio, ouço uma voz, sibilando qualquer coisa que no momento não constava em meus interesses, que entorpece outra vez os sentidos da fera interior. E desci alguns degraus de minha ascensão ao completo.
Segue a melodia, segue a mudança nos sentidos. A despedida tornara o elo entro homem e fera mais forte e as barreiras entre eles, mais diáfanas. A aura monstruosa já tomava forma definida, ampliando a capacidade do hospedeiro de tal forma que não mais se percebia qualquer sombra de que um dia houve fraqueza em suas carnes. O lobo estava livre. Formava em torno de mim uma aura pulsante de vigor e fúria, acentuada em seu brando tom prateado. Os olhos fixos, a máscara posta, era outra vez aquilo que o mundo enojava. Era o ser nefasto que todos aqueles não admitem morar em si. Eu era o ódio.
Termina o hino, segue a orquestra, com uma música que me dizia que tudo poderia ser diferente, mas que isso não deveria ser revelado, e o totem plasmático dissipou-se em parte. Com meia máscara posta, segui em minha caminhada e a melodia muda e me diz que eu realmente não pertenço a este lugar. Que tentando me adequar a este, tornei-me próximo pra ficar distante, consciente de tudo o que ocorre, longe de tudo ao redor. Havia renegado-me de mim mesmo, para poder estar novamente consciente. E era outra vez só carcaça, sem força vital transpassando os poros.
Durante a jornada, a memória de terras ermas, da neve caindo por sobre sua pelagem, o sangue brotando das têmporas dilaceradas. A decepção, a raiva, o ódio por si mesmo, atacando-o por todos os lados. Frases hediondas e pensamentos repulsivos, perpassando sua mente anestesiada. A imagem da libertação dos campos cortantes surgindo viva em seu horizonte.
E só quando iniciada a peça final que a força voltou. Lutando para se libertar, lutando para voltar à vida. Duas entidades se conflitando para tornar-se uma só, uma comunhão de força, frieza e vontade. E, findo o conflito, tornou-se um, aquilo que queria desde o princípio, conflitando apenas com o externo, com o que não lhe pertencia. Ainda...” – C. J. Amorim (15/06/12)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Da Vontade

Do tempo, não espero mais nada...
Roubou o que eu mais queria
Do tempo, quero distância...
Prefiro permanecer parado
Congelado, permaneço
Longe das dores que o mundo despeja
Longe das flores que brotam na noite desgostosa
A noite, invejosa, é só mais uma aliada do tempo
Este que me oferece a mão aberta
E que recuso.
Deixo que ofereça àqueles que realmente merecem.
O sofrimento é deixado de lado
E a vida passa diante de meus olhos...
Onde? Em qualquer lugar.
O mundo gira ao redor de quem merece
E há aqueles que o mundo esquece
E permanece girando como se não os houvessem...
Como se houvessem regras a serem seguidas
Na medida em que o tempo leva minha sanidade,
Eu permaneço acordado
Como se ainda houvesse algo a ser feito
Viro a dose, acendo mais um cigarro e sigo o rumo que a rua me faz
Sigo o rumo que a vida me traz.
Deitado no leito, peso o que o dia me trouxe
E nenhuma dor pesa mais que uma palavra...
Vejo que nada é tão importante que não possa ser esquecido
E retrato a realidade apenas pela necessidade de escrever
Um verbo que seja
Morrer? Amar?
Iguais para mim...
Escrevo, apenas porque as palavras são muito mais fortes que eu.
A vontade assola os campos de meus dedos
E derramo meu sangue por tinta, por meio de um texto em Arial 12...
Se te atingir, melhor pra ninguém.
Prefiro que este se mantenha em segredo
Tua aliança é mais forte que meu vil desejo...
E deixo correr a vida, girando o mundo através do tempo
Mas do tempo, não quero mais nada.
Pois o tempo roubou meu abraço.
                                                                                              Um Fauno (17/05/12)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Perdido

Era Sangue
O que corria em veias tortas
Era sangue
O que passava em ruas mortas
Era dia
E nem o sol queimava as notas
Era fria
Silenciosa manhã de inverno
No inferno...

Era pouca
E mesmo assim mais do que tudo
Era louca
A sensação de estar sozinho
Era clara
A insensatez da insanidade
Era calma
A imponência dos arautos
Era de pedra...

Era mesmo
Tudo aquilo que esperava?
Era mesmo
O mundo que ao teu redor girava?
Era grande
A impaciência do conclave
Era frágil
A densidade das palavras
Era dia...

E mesmo assim
Estava calmo e paciente
E mesmo assim
Continuava tua busca incessante
Era mesmo
Necessário tanto desprezo?
Era mesmo
Necessário teu desespero?
Era lógico...
                                                                                              Um Fauno (01/05/12)

terça-feira, 24 de abril de 2012

Fome

“Em volta da fogueira quase morta, as sombras dançavam. Já não eram mais as mesmas de quando eles haviam se perdido. Eram menores e já haviam diminuído muito em número também. Do grupo de sobreviventes haviam restado apenas dois, e nenhum alimento. Este, já havia terminado há cinco dias. Estavam famintos e alimentavam-se apenas dos poucos frutos que encontravam pelo caminho. Nas armas que carregavam, seis balas apenas, três para cada um. Se não fossem as chuvas constantes já teriam morrido de sede. Por sorte, tinham encontrado um lugar seguro e longe das tempestades violentas. Por sorte, haviam encontrado alguns galhos não tão molhados. Por sorte, estavam vivos.
Tentaram, em vão, reanimar a fraca fogueira e a fraca vontade de viver. As barbas que cresciam incessantemente mostravam há quanto tempo já estavam naquele inferno. Os olhos já não mais brilhavam, estavam gélidos, parecendo dois buracos escavados entre os ossos aparentes de dois mortos-vivos. As unhas imundas de sangue e lama denotavam o desespero em encontrar algo que os pudesse salvar. Os calos de seus membros mostravam o quando correram e rastejaram, fugindo dos perigos que o ambiente inóspito guardava. A pele flácida, marcada de sol e cheia de feridas, denunciava o quanto sofreram nas mãos de um destino cruel e inesperado. Apenas a coragem e a vontade de voltar para seus lares sobreviviam dentro de seus corações esperançosos.
Um relâmpago clareou o interior do abrigo e o primeiro homem pegou seu cantil. Estava vazio. Levantou-se, cambaleante, e caminhou em direção à chuva. O segundo estudava a cena com calma, uma calma insana, proveniente dos dias de exílio. Já não pronunciava uma palavra há aproximadamente dez dias. O desaparecimento e a morte de seus companheiros e a presença de um homem surdo tornavam desnecessários os diálogos. Sim, o primeiro homem era surdo.
Observava enquanto o pobre homem enchia seu cantil e saciava sua sede, quando outro relâmpago iluminou a caverna e fez brilhar uma superfície metálica: o tambor de seu revólver. Já havia até se esquecido que trazia uma arma consigo, depois de tantos dias sem ver sequer um animal que pudesse abater. Olhou para o revólver, tentado a pegá-lo e acabar de vez com tanto sofrimento, com tanta fome. A loucura o levava a querer ceifar a vida de seu companheiro para que pudesse ter suas necessidades carnais saciadas. Era a fome quem falava por ele.
Jamais faria isso em condições normais. Tinha horror a sangue e violência. Abominava a idéia de comer um de seus iguais, mas a fome gritava mais alto que a razão. Esperou até ter a certeza de que seu companheiro não estava vendo e caminhou até a arma. Poderia fazer o barulho que quisesse, pois sabia que não seria ouvido. Foi cauteloso, tomando sempre o cuidado de manter-se longe das chamas, para que sua sombra não o denunciasse. O que ele não sabia é que o primeiro homem era uma farsa.
Não era surdo, muito pelo contrário, ouvia muito bem. Ouviu os movimentos de seu companheiro, mas estava mais preocupado em saciar sua sede. Fingiu-se de surdo, pois estava fazendo um experimento sobre o comportamento humano na presença de situações não tão comuns. Pareceu-lhe uma boa idéia, pois poderia saber o que os outros pensavam sem ter a necessidade de demonstrar isso. Sempre fora um bom ator e conseguiu simular a surdez com louvor.
O acidente quase botara tudo a perder, mas, o grupo de sobreviventes lhe deu esperanças de prosseguir com o experimento. Ao contrário do que pensava, a situação adversa só fez aumentar o sucesso da experiência, porém, com a constante diminuição do grupo já não havia mais razões para continuar. Sequer sabia se sairia vivo desta empreitada para contar ao mundo os resultados de seu experimento. Diversas vezes havia pensado em parar, mas temia a reação dos outros ao descobrir que haviam sido enganados.
Diversas vezes havia pensado em se matar, mas não o fazia para que seu último companheiro não ficasse sozinho. Ambos estavam fracos e caminhando em direção à morte certa, mas sabia que seria mais fácil lutar se permanecessem juntos. Enquanto pensava em tudo isso, notou um súbito silêncio no interior do abrigo. O clique seco de uma arma sendo engatilhada atrás de sua cabeça eliminou seus últimos devaneios e pensamentos.
Virou-se rapidamente e notou a surpresa no rosto esquelético de seu companheiro. Deu um sorriso de desdém e pronunciou algumas palavras quase inaudíveis, com dificuldade, devido ao tempo que não utilizava a fala. Estranhamente, o outro homem apenas ouvia.
Não esperou reação. Partiu pra cima do homem armado, apenas com seu cantil em mãos. Sabia que não adiantaria muita coisa, mas ainda assim, era melhor que lutar com as mãos nuas. Pulou sobre o homem atônito, para evitar que ele tentasse alguma coisa. Sua fome de viver, ainda que pouca, era grande demais para que se deixasse vencer tão facilmente.
Lutaram durante alguns minutos, um tentando sobrepujar a vontade do outro. Rolaram pelo chão da caverna desferindo golpes para todos os lados, quase cegos, pois a fogueira há muito já havia se apagado, restando apenas algumas brasas incandescentes. A todo custo, um tentava vencer o outro para ter seus desejos saciados. Enquanto um lutava para sobreviver e não enfrentar a solidão, o outro pensava apenas em saciar seus desejos primais. O desespero em vencer trouxera nova força e vigor aos dois homens.
Um barulho estranho, vindo de fora da cena, fez com que os dois ficassem outra vez estáticos. Separaram-se rapidamente buscando esconder-se nas sombras da caverna. O primeiro homem correu para seu revólver, pronto para se defender de qualquer ameaça, fosse proveniente de um animal selvagem ou do companheiro louco de fome e, arrastou-se de volta à escuridão.
Uma sombra disforme lançou-se sobre as brasas da fogueira morta, iluminada pelo clarão da tempestade. Trazia consigo outras três sombras, munidas de armas e lanternas. Eram homens, aparentemente mais sãos e preparados do que os habitantes da caverna. A luz das lâmpadas segou os dois exilados, desacostumados com qualquer coisa proveniente da civilização. As sombras avançaram para dentro do abrigo, buscando confortar os pobres homens.
Aliviados, largaram as armas e se deixaram cair ajoelhados, com lágrimas lavando seus rostos agradecidos. Estavam salvos.” – C. J. Amorim (17/11/11)

domingo, 15 de abril de 2012

Jogados

“Há sangue em suas mãos. Ainda há sangue em suas mãos e, não importa quantas vezes você as lave, suas mãos permanecerão manchadas com esse sangue. Há pecado em suas mãos...
Há pecados que não deveriam ser perdoados. Sujar as mãos com sangue desnecessário deveria ser um deles, mas, atualmente há uma necessidade por qualquer tipo de sangue. O sangue derramado vale mais que o que corre nas veias, o banho de sangue purifica mais que a água das fontes naturais, as folhas já nascem vermelhas devido às raízes coaguladas, os campos se enchem com sinais de morte e a insanidade se instala outra vez nos calmos campos.
O pós-guerra é uma realidade inacessível. Vivemos em caos, vivemos em morte e, mortos, sobrevivemos. Frios e calados, como sinceros cadáveres, mantemo-nos imunes. Não importa o quão grave seja a situação e o quão alto a voz da razão berre em nossas mentes, se mantermo-nos calados, sobreviveremos. O sangue dos quaisquer não nutre nossa sede de vingança. Esse sangue é nosso desconhecido, não é nosso sangue.
Choros e gemidos compõem nossas canções de ninar, ossos jamais enterrados alicerçam nossos lares, casacos de pele são tapetes de ‘bem-vindo’ nas portas da frente das mansões dos poderosos. Mesmo sentados em seus tronos de chumbo e balas, mesmo com suas mãos imaculadas, suas mãos estão manchadas de sangue. Ainda há sangue em suas mãos. Ainda há pecado...
Sob os comandos desses chefes de estado, marionetes fardadas continuam a rolar dados demolidores em tabuleiros onde não foram chamados para jogar. Não se respeitam as regras impostas para estes tabuleiros. Devido a isso, os invasores sempre vencem e, os mais variados jogos se tornam um mesmo jogo de ‘War’, com a diferença que não importa a cor de suas peças, seus principais objetivos são: destruir todos os exércitos inimigos, conquistar todos os territórios e, talvez o menos importante, manter-se vivo. Se tiver sorte, talvez você consiga sobrepujar teus inimigos mesmo em desvantagem, mas, a sorte há muito foi comprada pelos donos dos melhores brinquedos.
Os dados prosseguem rolando, jogando contra a sorte, jogando a sorte contra nós. Os mortos continuam caindo e a realidade se distorcendo, favorecendo os que não deveriam existir. Lágrimas brotam dos olhos dos soldados todas as vezes que são obrigados a matar incapazes. Lágrimas brotam dos olhos dos soldados todas as vezes que um irmão de armas morre. Lágrimas brotam dos olhos dos inocentes a todo instante, devido ao terror que os abraça com garras esfaceladoras. Lágrimas brotam dos céus, lavando os campos vermelhos e alimentando o bolor que nos corpos nasce. Mas lágrimas nada mudarão enquanto os olhos dos mascarados continuarem secos.
A máscara da ganância drena qualquer tipo de sentimento dos que um dia optaram por usá-la. A máscara do poder elimina qualquer tipo de temor que se poderia sentir por qualquer coisa menor, igual ou maior que seu usuário. A máscara da demência apaga todo tipo de lembrança do que um dia se foi antes de vestir essas máscaras. O manto da desilusão cobre o frágil ser, usuário de qualquer máscara ou subterfúgio. E, enquanto isso, longe de qualquer tipo de veste que não as que vestem as marionetes fardadas, os dados continuam rolando, a sorte correndo livre pelos campos imersos em sangue e os desejos sórdidos dos grandes aniquilando a realidade dos pequenos. Ainda há sangue em suas mãos, ainda há pecado em suas mãos e ainda há medo em seus olhos, mas as máscaras que eles usam nos impedem de vê-lo.” – C. J. Amorim (15/04/12)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sentimentos

Não eram, não morreram, me deixaram
Fugiram e correram, se esconderam
Promessas me fizeram, não voltaram
Mentiras absurdas, protegeram

Eternas reuniões que protelaram
Mostraram as desculpas que aprenderam
Pra enganar os que um dia amaram
Mas que, talvez, o amor nunca entenderam

Mostraram suas caras indistintas
E mascararam todos que não viam
As intenções por trás de seus olhares

As cores misturadas de suas tintas,
Que maquiavam todos que os seguiam,
Pintaram um vão sorriso em seus lugares.
                                                                                              Um Fauno (24/09/09)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Bueiros da Inexistência

“Trovões, trovões e trovões, mas não há raios para iluminar a face da morte. Apenas o barulho de algo que não deveria estar lá, mas que insiste em permanecer, mesmo não sendo bem vindo. Seus trovões não me assustam mais. Cresci e desapareci, desapareci de teus sonhos insanos. Não há mais razões que me atem a este lugar, não há mais razões que me atem a seus trovões. O alarde pode permanecer, sua fúria pode cortar o ar, mas eu não me importo mais com seus trovões... Não temo mais essa chuva.
Sempre odiei a chuva. Desde que me recordo, não houve ocasião em que as gotas me banhassem com graças e, esta chuva que ameaça cair, não mais me comoverá. Não acredito mais que a chuva trás renovação. Sempre que penso na chuva, penso em desgraça e solidão. Não mais tente me comover dizendo que a chuva lavará minhas mágoas para longe de mim. Ultimamente, quero ter minhas mágoas por perto, pois elas me fazem lembrar que não importa o quanto eu tente, sempre perderei minha razão por motivos fúteis e, toda vez que eu o fizer, sempre acabarei imerso em mágoas.
Trovões, trovões e mais trovões e, às vezes, luzes perpassando o céu. O céu, vermelho e cinzento, apenas me diz para ficar em casa, para ficar num lugar conhecido, me aprofundando dentro de mim. O céu, vermelho de sangue, diz que a guerra ainda não terminou. O céu, das cinzas dos cremados, diz que o fogo ainda queima pelos campos da insanidade. O céu, azul de doces sonhos, não mais surge em meio às desgraças. As luzes que percorrem o céu são apenas raios artificiais, vislumbres das explosões que banham minha mente com dor. Metralhadoras e baionetas de meus indesejados algozes, todos trajando a mesma farda e usando a mesma máscara, trajes que me recordo, do último dia em estive em sua presença.
Os trovões retumbavam pelo céu e dentro de nossos seres. Ecoavam em minha mente e não me deixavam ouvir meus pensamentos. A face da morte, oculta pelas sombras que os prédios desenhavam, tornava a tua face mais clara, destacando o desdém e a mentira que em seu sorriso tentavam se ocultar. Nos teus lábios, os dizeres de adeus, de que um dia voltaria para me cobrar tudo aquilo que nunca houve entre nós. Nos teus olhos, o seco e o opaco, mostrando que eu não deveria acreditar em nada que de tua boca saísse. No céu, a certeza da morte, caindo por sobre meus ombros, lavando meu corpo inerte, jogando-me contra mim mesmo, tentando fazer com que eu acreditasse que tudo estava errado, apenas por estar em um ambiente propício. E lá, entre o concreto dos sonhos quebrados, entre os desejos abandonados, eu fiquei, esperando que o sol saísse e iluminasse meu horizonte incerto, me dando esperanças de que a vida continua. E ele surgiu...
Surgiu, trazendo o vislumbre de que um dia eu teria a certeza de que tudo não passa de ilusão, de que tudo é efêmero e vão, de que tudo não passa de vilanias daqueles que querem nos ver rastejando, clamando por piedade, chamando os nomes dos que um dia nos fizeram ‘bem’. Neste dia, os trovões silenciarão, os relâmpagos iluminarão meu verdadeiro querer, os raios atacarão minha mente e apagarão minhas memórias, as gotas me banharão com a certeza de que não haverá mais dias de dor e, neste dia, e apenas neste dia, eu amarei a chuva. Neste dia, terei a certeza da morte, da morte das coisas que não mais necessito e de todos aqueles que tornam nossa vida mais fútil e desnecessária. E, quando o sol surgir por trás das nuvens ocas de lágrimas, somente as verdades permanecerão e todas as dores descerão pelos bueiros da inexistência.” – C. J. Amorim (09/04/12)

domingo, 1 de abril de 2012

Como Tantos Outros

"Com a corda no pescoço, ele suava frio. Ainda não havia entendido o porquê de estar ali, não havia razão aparente para tamanho alvoroço. Assustado com os gritos da multidão enfurecida, a única voz que ele conseguia distinguir era a do reverendo dizendo: ‘Arrependa-se e serás salvo!’, mas, não havia porque se arrepender. Não tinha feito nada de errado.
Olhou para baixo, para a portinhola prestes a ser aberta, a porta pela qual entraria e que por ela não sairia mais, pelo menos não vivo. Respirou fundo e procurou por um par de olhos na multidão, nenhum em específico, apenas um par de olhos. Um par de olhos cujo brilho da liberdade ainda ardesse. Um par de olhos que o olhasse com piedade e, ao mesmo tempo, coragem de continuar aquilo que ele não havia terminado.
Demorou-se nesse olhar por alguns minutos e, decepcionado, concluiu sua busca, sem resultados. Olhou para o carrasco, esperando por seu fim. E, enquanto esperava, percebeu que deveria estar ali. Deveria estar ali, pois quando tudo terminasse, quando tudo já estivesse esquecido, o mundo continuaria girando e, em uma de suas voltas, alguém perceberia que ele estava correto! E, talvez, esse alguém lutaria para realizar aquilo que ele não havia terminado.
Percebeu que a morte era o que ele realmente queria. Queria viver, mas não entre um povo que não quisesse abrir os olhos, não entre cegos e fanáticos. Entre os que acreditam em ideais impostos pelos mais fortes e dogmas incontestáveis. Era considerado um revolucionário apenas por ver além do que realmente as coisas aparentavam ser. Era, na verdade, o incorreto.
A sociedade na qual vivia viu uma necessidade de manter um padrão e ele não se adequava a este padrão. Precisava ser erradicado. Mas ele sabia que não fora sempre assim. Sabia que antes dele houveram muitos outros que lutaram e que também perderam. Sentiu-se culpado por não ter conseguido terminar o que tantos outros começaram e, ao mesmo tempo, sentiu-se esperançoso por alguém que o pudesse fazer. Sorriu.
Encarou mais uma vez a multidão e, sem pronunciar nenhuma palavra, fechou os olhos e esperou por seu fim. O retesar da corda provocou um espasmo em seu corpo, espasmo este que se espalhou por toda a multidão. Espasmo que tocou a alma do mais frio dos homens.
Diante a tal cena, os mais novos e mais fracos se sentiram amedrontados; os mais velhos, entediados; os mais fortes, orgulhosos e os mais inteligentes, conformados. Ele precisava ser erradicado.
Diante de tamanha violência desnecessária, o povo voltou para suas vidas cotidianas. Apenas os que viram seu sorriso souberam o que realmente deveriam fazer. Infelizmente, estes também já estavam mortos." - C. J. Amorim (04/11/11)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Endereço

“Sabe, eu já morei nessa rua e comigo morava a inocência, mas isso já faz muito tempo... Eu era uma criança, sem noção do que poderia ser o mundo e das coisas que me esperavam a cada esquina, a cada passo dado. Naquele tempo, eu não dava nem um passo fora da linha, e nunca estava sozinho. Mamãe me acompanhava para qualquer lugar que eu fosse. Mamãe... Hoje em dia, raramente a chamo de ‘mãe’.
Passando nessa rua, me lembrei do quanto eu tive e do quanto eu desconhecia. Jamais havia encarado a rua como uma passagem de tempo, como uma transição vital. É, definitivamente eu cresci. Há nisso tudo, uma certa sinestesia teológica, onde me vejo senhor do tempo que na verdade flui por um lugar, e do espaço não modificado mas que modifica meus sentimentos. Não há mais necessidade de uma mãe ou de quem quer que seja para me mostrar certo e errado, bondoso e cruel. Hoje sei que o mais cruel pode ser o real bondoso e que certo e errado são apenas estados pelos quais estamos fadados a passar.
Essa rua ainda guarda os mesmos comércios, as mesmas pessoas, os mesmos sonhos, e esta chuva que cai apenas os lava e os leva bueiro abaixo. As gotas límpidas refletem a luz efêmera de um sol fraco, oculto pelas nuvens quase cinzas, dando um tom amarelado, quase sépia, nesta cena cotidiana. Esbarro com rostos conhecidos que talvez nem se lembrem de quem eu sou. Faz muito tempo que me mudei dessa rua e talvez essas pessoas nem mesmo se lembrem de que um dia eu estive ali.
Eu era muito tímido. Não que eu ainda não seja, mas eu nem colocava a cara para fora do portão. As únicas vezes que eu saia, eram para ir ao colégio ou na casa de algum colega, que não morava naquela rua. Nunca me dei com os vizinhos, e isso se dá até hoje. Procuro abrigo na distância e esqueço-me dos que me cercam com mais frequência. Nisso eu não mudei, continuo o mesmo tímido distante que eu sempre fora.
Essa rua me remete a um tempo em que não havia importância, onde não havia grandiosidade ou subjugação. Todos eram iguais e não havia receio ou preconceito. Dinheiro era só mais uma coisa reles que não interferia em nada. Eu nunca tinha pensado que uns tinham mais e outros não tinham nada. Felicidade não se comprava, era só sentar em frente à TV e deixar a programação passar por nossos olhos e se alojar em nossas cabeças, mas nem mesmo isso se passava dentro de minha mente... Eu era um garoto inteligente, mas não tinha essa noção corporal, sentimental e social que hoje tenho. É, definitivamente eu cresci.
Essa chuva que agora cai me faz pensar que antigamente sol e chuva não diferiam em nada para mim. Era tudo natural, não era causado por ciclos ou obedecia a uma lógica sistemática e condicional. No passado eu me importava somente com o agora... Quando a gente cresce, passa a viver para outros tempos, para outros alguéns. Esquecemo-nos de que ainda continuamos vivendo, de que somos as mesmas pessoas que éramos antes e, mudamos completamente, não só de endereço, mas de conduta e postura e deixamos que a nossa inocência morra e que os nossos sonhos sejam levados pela chuva.
Passando por esse tempo, vejo o quanto a rua me mudou e o quanto a chuva reflete a paisagem de forma distorcida. Passando por esta chuva, eu vejo o quanto o tempo me moldou e o quanto a rua se tornou uma memória esvaecida. Passando por essa rua, eu vejo quanto tempo eu estou perdendo, buscando na chuva uma resposta para meus sentimentos estremecidos. Passado meu, desta rua, trago apenas a lembrança de que minha morada real é o tempo, e que ando destruindo meu lar, buscando novos alicerces em outras pessoas e coisas.
A gente muda, o mundo muda e nos moldamos para que possamos ser um com as coisas que vivem ao nosso redor. Se deixarmos, poderemos ser tudo aquilo que outrora fomos, sem que para isso precisemos mudar a forma como pensamos ou agimos e apenas acrescentemos tudo aquilo que fomos um dia, ao nosso novo modo de estar. Podemos voltar aos nossos antigos endereços e encontrar fragmentos de nossos seres ainda habitando aqueles lugares. Podemos voltar aos nossos antigos endereços e nos tornarmos os novos endereços daqueles lugares...
Sabe, eu já morei nesta rua e, um dia, esta rua já morou em mim também...” – C. J. Amorim (28/03/12)

domingo, 25 de março de 2012

Ego

Compasso e destra, tudo em vão termina
Ao que não adianta ser prudente
Ignomínia pura é o que domina
O ocaso é fato e tudo é céu poente

Juntar discórdias cegas me anima
O tempo eterno já não me consome
Retiro a métrica e não perco a rima
Gerando discussão que chega e some.
Eu não estragaria um belo nome.

Agora, atenção quando isto lerdes
Manipulai teus sonhos inda verdes
O meu auto-retrato, em forma culta,
Revela minha mente quase adulta
Indica a vós, de tudo, esta razão.
Meu ser, minha verdadeira inspiração
                                                                                              Um Fauno (10/07/09)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Lembrança

Esses versos lhe dirão o que restou deste poeta
Após busca incessante de uma lancinante meta
Encontrada, enfim, e terminada sem saber

Da mulher que cobiçava, tive um dia a companhia
O contato de sua pele, minha máxima alegria
Me custou o coração, que cedi sem perceber

Suas lágrimas, tão doces, macularam minha alma
Penetraram em meu corpo com sua divina calma
E levaram-me à loucura sem sequer dizer o porquê.

Seus lábios, antes sérios, machucaram meu ego
Me fizeram emudecer, me tornaram cego
Me disseram o que eu pensava antes mesmo de saber

Seu rosto, traiçoeiro, dilacerou minha memória
Fez-me ver que o passado não é nada além de escória
E o futuro, para mim, é servir ao seu prazer

Seus olhos, profundos lagos, ofuscaram minha visão
Levaram minha luz, sentidos, orgulho e razão
O importante pra mim agora não é mais o meu viver

Você...
Você foi, e sempre será, minha divina perdição
Minha ânsia de ser e estar, meu destino, meu...

Perdão.
Não soube lhe dizer, o que aqui e agora expresso
E às origens da fala, espero por meu regresso
Meu olhar lhe diria o que sinto, se eu não fosse tão tolo

Já fui forte, mas agora, não passo de mera lembrança
E a lembrança de minha vida, já me deixa, já me cansa
Meu amor, razão e tristeza, são agora o fim de tudo

E no fim de meros versos, eu me torno passivo e mudo
Mudo perante a Deus, mudo perante a tudo
E o que eu queria era apenas
Te dizer o quanto te amo.
                                                                                              Um Fauno (07/03/08)

domingo, 18 de março de 2012

Desejo... Só Isso...

"Eu queria uma pessoa... mas não uma pessoa qualquer, aquela. Aquela que te deixa livre para ir e voltar. Aquela que não se importa com seus erros, pois vai ajudá-lo a repará-los junto. Aquela que, se você decidir saltar de cabeça num precipício, sem volta, ela vai tentar te convencer do contrário e, no final, vai saltar junto com você.
Eu queria uma pessoa igual e diferente de mim. Uma pessoa tão livre quanto eu, difícil de prender, difícil de lidar. Uma pessoa que me conquiste mais e mais a cada dia que passa, e que não se deixará ser conquistada tão facilmente. Uma pessoa que, quando eu conquistar, mudará totalmente, para que não me deixe morrer de tédio, que não me deixe ser o mesmo. Que não me deixe ser eu mesmo.
Uma pessoa como todas as outras, com horários e cotidianos. Que não tenha tempo pra nada a não ser para si mesma, pois eu não quero ser eu perto dessa pessoa... Eu quero ser ela e que ela seja eu. Então, dedicaríamos nosso tempo a nós mesmos e um ao outro.
Uma pessoa simples e ignorante, para que eu possa implantar coisas minhas em sua essência, mas não sem que haja uma certa reciprocidade. Quero tocar essa pessoa e que ela me toque também. Que consigamos ver um pouco de nós, um ao outro, dentro de nós mesmos. Eu quero me ver nessa pessoa e que ela se veja em mim também.
E quando findo o tempo de nós dois, tomaríamos novamente o rumo de nossas vidas, sem fúria, sem dor, sem briga, sem ressentimento, mas, com sentimento. Eu queria algo diferente, algo novo, inesperado, difícil de controlar... sem volta...
Aquela pessoa que vai rir quando você chorar, não porque gosta de ver sua ruína, mas para lembrar-te de que o riso mais belo provém do natural e, que te lembrará, assim, que chorar é tão natural quanto rir... Eu queria aquela pessoa que tira o fôlego, te deixa arfando quando colidem os corpos, quando aconchegam-se os lábios. Aquela pessoa que te destruirá, te mudará e não te deixará voltar atrás. Aquela que te marca com força. Uma marca que sempre estará no fundo de seu ser.
Eu queria mudança. Eu queria mudar, mas não mudar sozinho... Com aquela pessoa, sem mudar essa pessoa...
Eu queria a contradição, já que eu mesmo me contradigo. Eu queria outra vez o natural e que essa pessoa nunca me tivesse ocorrido. Eu queria o passado, pois nele eu era tranqüilo e não tinha necessidade desta pessoa. Eu queria esquecê-la e nunca tê-la desejado, pois não posso mais viver sem ela e sei que ela não mais pode viver sem mim. Eu queria nunca tê-la tocado. Eu queria deixá-la ir, sem que ela sinta necessidade de olhar pra trás e ver minhas lágrimas lavando os últimos resquícios de sua sombra, da sombra que segue atrás dela, sempre. Da sombra que ela deixou em mim.
Eu queria libertar-me da culpa e da vontade. Culpa de tê-la desejado, conseguido e arruinado o belo que um dia fomos, e da vontade de nunca ter feito nada disso, nunca realmente tê-la desejado com desejo, com vontade. Vontade de tê-la pura e simples novamente e diferente de tudo que havia desejado.
Uma pessoa que segure minha mão quando eu desejar saltar e que me impeça, me puxe de volta. Uma pessoa que chore quando me vir rindo. Uma pessoa que erre mais do que eu e que não me deixe corrigi-la. Diferente do que eu estou acostumado, diferente de tudo e todos. Diferente até mesmo de si mesma. Que se contradiga mais do que eu me contradisse... Mais do que eu me contradisse nesse texto vago, sentimental e superficial. Deste texto sem sentido, deste desejo sem sentido, deste sonho utópico em ter alguém, qualquer pessoa, somente para acabar com a solidão e o vazio de nunca ter tido ninguém. Realmente, eu queria você... Só você... Só isso." - C. J. Amorim (17/10/11)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Espelho

Eu não quero olhar em volta e ver que estou sozinho novamente
Eu não quero mais olhar em volta...
Eu não quero olhar em volta e ver que tudo que construí, ruiu
Eu não quero olhar em volta...
Eu não quero olhar em volta e ver apenas os fantasmas dos que me cercaram
Eu não quero olhar...

Eu não quero olhar pra dentro e ver o vazio que nasceu em meu peito
Eu não quero mais olhar pra dentro...
Eu não quero olhar pra dentro e ver que tudo que guardei em mim, fugiu
Eu não quero olhar pra dentro...
Eu não quero olhar pra dentro e ver buracos e marcas feitas por mim mesmo
Eu não quero olhar...

Eu não quero olhar pra frente e ver que não tenho mais um destino pra seguir
Eu não quero mais olhar pra frente...
Eu não quero olhar pra frente e encarar o espelho da realidade
Eu não quero olhar pra frente...
Eu não quero olhar pra frente e ver meu futuro copiando meu passado
Eu não quero olhar...

Eu não quero olhar pra cima e ver anjos escarrando em minha pessoa
Eu não quero olhar pra baixo e ver o chão se desfazendo sob meus pés
Eu não quero olhar pra trás e encarar meus piores erros
Eu não quero mais ver nada, pois tudo me lembra você
Eu não quero olhar seu rosto, pois ainda me vejo em seus olhos...
Eu não quero olhar...
Eu quero olhar...
Eu...
                                                                                              Um Fauno (15/03/12)