quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Liberdade

A falsa sensação de liberdade
Não é
Igual a sensação de falsa liberdade.
Mas é como se fosse
Pr’aqueles que não sabem o que querem
Pr’aqueles que não sabem, querem, são
Ou não são...
Aqueles que não sabem o que são.
Ah! A falsa liberdade de expressão!

E a expressão de falsa liberdade,
Não é verdade.
Somos poucos os que querem, sabem, são
Ou não...
Não somos verdadeiros de verdade
Somos todos como um só.
Vontade
A falsa liberdade, sensação.

Somos todos como um só, uma
Vontade
Somos todos como um só, um
Má vontade
E da falsa liberdade uma expressão:
Liberdade para as falsas sensações!
                                                                                              Um Fauno (09/07/09)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Crupiê

Caminho lentamente
Caminha lenta, a mente,
O tempo importa numa ciranda de cristais quebrados?
Te importuna uma ciranda de crias levadas?
Levadas por quem não deveria tocar ninguém
Tocar notas altas e baixas num boletim vermelho?
Nenhuma nota entoada num piano sem marfim
Sem a majestosa presença do alvo
E o alvo serei eu, num ébano que tinge meus sonhos
Do ébano que tinge meus sonhos...
Olho pra baixo e vejo pegadas
Pecados apagados. Pagos.
Maculadas de um sangue que foi meu,
Coagulando meu pecado mais pagão
Acreditar num Deus que nunca acreditou em mim.
Imerso no meu sangue pecaminoso, sigo
Imundo da verdade proferida.
Um mundo de vontades imprecisas
Impressas em cartas marcadas
De um baralho incompleto
Incompreendido
Sem reis, rainhas ou bobos da corte
Serei marcado para não ser perdido
Serás rainha e eu, bobo da corte.
Sento à mesa. Banquete da realeza
Realidade, carta fora do prazo de entrega
Baralho travado na portinhola de correspondência,
Corresponde ao meu coração abandonado,
Ás de copas na mão de uma jogadora inexperiente
Royal Straight Flush e vou por água abaixo.
Não tenho naipe para acompanhar-te,
Por isso, serei crupiê, te dando as melhores jogadas.
E enquanto toca a melodia
De ébano e coral de crias incompreendidas,
Teu colar de coral será a aposta mais alta
Nesta mesa onde bebem este sangue embriagador.
Ébrio desta dor, de ter meus pecados sentados à mesa
Num banquete onde não sou mais que um garçom,
Onde não sou mero Deus pagão,
Onde sou sincero perdedor,
Crupiê de desgraçadas cartas.
                                                                                              Um Fauno (21/12/11)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Matilha de um Pária

"Sou um lobo solitário, correndo pelos campos cortantes da insanidade, sem parar sequer um segundo, com medo de que o vácuo da noite sem luzes me engula. Sigo correndo, com lágrimas arenosas escorrendo por toda minha cinzenta pelagem, uivando para uma lua nova, que vive encoberta por nuvens de chuva que nunca entram em tempestade. Preferia viver numa sanidade chuvosa ao continuar correndo por estes prados de desolação. Não, a loucura já deve estar tomando conta de mim. Eu sempre odiei chuva...
A chuva me lembra lágrimas e lágrimas me trazem inveja. Vejo todos ao meu redor, chorando por pesar, medo, dor ou o que quer que estejam sentindo e eu não mais consigo derramar qualquer lágrima que seja. Deve ser por isso que hoje estou só e abandonado, por ser diferente e por ser indiferente. Abandonado numa noite escura, fria e extremamente atormentadora.
Olho para cima e vejo as nuvens convergindo ao meu redor, formando um tufão onde enxergo todo meu passado se misturando e fazendo com que eu me sinta cada vez mais fraco. O que me tornei é conseqüência deste passado frio e incorrigível. Olho para frente e vejo uma extensão interminável de dor e sofrimento, o futuro que me foi reservado por aqueles que um dia quis por perto. Amei incondicionalmente pessoas que me querem sozinho. Amei incondicionalmente criaturas que cri que me amavam também. Sou uma matilha de um só, correndo para não ser devorado pela bocarra maldita da tormenta e do esquecimento.
Os fantasmas de meu passado constantemente me atormentam, sugando minha vontade de viver e cantando canções de ninar compostas com meus mais doces sonhos. Seria fácil me ludibriar, se as faces dessas aparições não fossem as mesmas faces dos que um dia amei e dos meus mais psicóticos pesadelos.
Um sono derradeiro vai tomando conta de mim, com mais força a cada momento que passa. As canções entoadas parecem estar fazendo efeito, enfim. A cada passada, a cada escorregão, a cada tropeçar vacilante, meu corpo se cansa e implora por repouso, mas não posso parar. Se eu parar, o esquecimento me abraçará, se é que já não está me abraçando neste momento. Olho ao meu redor e vejo que não há mais ninguém além de mim. Não tenho mais apoio, pilares nos quais possa me sustentar, muros que eu possa escalar, escoras que vinham me levantar. Tornei-me definitivamente, um pária, um excluído. Trancado nessa escuridão nociva, hoje sinto saudades da luz.
Atormentado pelas vozes constantes de todos aqueles que um dia me cercaram, eu balanço a cabeça num sinal de negação. Meus olhos quase sangram, querendo chorar. Minhas patas se desfazem em meio às pedras e lamas. Já sou um com esta realidade, já sou um com a insanidade. Fecho os olhos na esperança de ver a saída para tudo isso, mas o que realmente vejo é minha carcaça humana abandonada numa cela vazia, iluminada por um inútil facho de luz. Abro os olhos não suportando ficar só comigo mesmo e vejo o real sentido de minha corrida incessante.
Corro, agora, por outro motivo, por outra razão. Corro com pressa de chegar ao abismo do desespero. A morte enfim encerrará meu sofrimento, me levará ao meu último desejo: a paz. Não mais esses malditos poderão me alcançar, não mais o meu passado virá me atormentar. Não mais viverei entre as mentes mortais. Salto, sem sequer oscilar, por sobre o vazio infindo. Em queda livre revejo tudo o que um dia me fez bem, mas não sinto saudades ou vontade de viver. A morte me fará livre, me fará o que quero ser.
Estacas de invejas inglórias atravessam meu corpo frenético. Se tingem com meu sangue quente, o sangue de um sonhador. Estacas em forma de dedos, das muitas mãos que apertara. Estacas dos muitos dedos que por meu corpo deslizaram. Alianças douradas que minhas mãos nunca habitaram. Sinais, sinetes e símbolos que meu sobrenome não usaram. Jazendo entre as rochas e espinhos, uma carcaça estraçalhada, de um lobo solitário, pária da sanidade. Jazendo em uma cova indigente, meu homúnculo irreconhecível. Numa lápide suja e coberta pelas eras e heras esquecidas, as palavras que nunca disse. Sem epitáfio, testamento ou discurso jazendo sozinho eternamente.
Desperta, minha alma vermelha, tingida de um sangue infiel, torna-se outra vez feroz, um avatar da crueldade. Animalesco vou seguindo, buscando por realidade. Sou um lobo solitário, correndo pelos campos cortantes da insanidade." - C. J. Amorim (21/12/11)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Maquiagem

“Eu olho pra esta página em branco e lembro-me de tuas lágrimas, molhando o chão limpo, como esta simples folha de papel. Eu vejo os vincos nas pontas e lembro-me de tua coluna arqueada, formando uma ponte entre tristeza e realidade. Eu toco esta alva superfície e vejo tua pele branca, maculada pela dor de alguém que não te merece. Eu sujo com tinta esta folha e vejo teus olhos desmanchando-se, na mesma cor negra do nanquim que passaste em teus olhos.
Entristeci-me apenas em ver-te, em ver-te derramando seus reais sentimentos, por alguém ou algo que até então desconheço, ou, quem sabe, finjo que desconheço. Essa tristeza afetou-me e corroeu-me um pouco mais. Eu, filho da própria desgraça, vi-me, enfim, como o desgraçado que sou. Não, tuas lágrimas não eram por mim...
Busquei manter-me torpe, para ver os borrões de tua maquiagem formando cores em meus pensamentos. Busquei o entorpecimento, para simular um sorriso sofrido em teus cálidos lábios. Fora de mim, posso ser o que eu quiser e sei que posso te fazer feliz. Fora de mim, sou realmente o que sou. Busquei sair de mim para esquecer tua tristeza, pois esta me afetava de tal forma que vi-me triste por não ser eu em teu lugar.
Busquei no adverso a felicidade apenas para fugir de sua tristeza. Busquei ser severo com meu tolo coração. Esses malditos fios carnais, essas cordas que tocam melodias sanguíneas, entoavam a melodia da melancolia, e meu ritmo cardíaco soava descompassado com a orquestra de meus pensamentos. Tornou-se uma composição de outro maestro, utilizando-se de minha orquestra natural.
Tornei-me triste em apenas ver-te triste. Eu não era assim... Percebi o quanto estou fraco, pois a fraqueza alheia anda me afetando. Eu, definitivamente, não era assim. Sou um campeão furioso, servo do Caos e da dor, e vendo uma frágil criatura com seus compassos fora de ordem, senti-me comovido? Não, esse não sou eu.
Vejo o quão humano ando me tornando e não estou gostando nada disso. Por ter tocado tua pele apenas uma vez na vida já me sinto responsável por tua plena felicidade? Não é isto que quero pra mim. Quero ser outra vez livre, fora destes grilhões de realidade, que atam meu peito ao teu, como um condenado numa cela escura. Quero, outra vez, abrir meus olhos e ver a utopia! Por isso, me entorpeço.
Para fugir dessa realidade cruel, para fugir dessa tristeza infiel, para fugir de ti. Para fugir de tua presença, sair outra vez ileso, como todas as outras vezes que deixei-me levar pelo momento. Entendo agora o sentido da ironia, pois agora sou a caça, e não o caçador, e sei que você é a presa de uma outra personalidade, tão vaga quanto a minha.
Te vi chorar e beijei teu rosto, querendo beijar tua boca por mais uma vez. Te vi sorrir, mascarando o que não mais adiantava esquecer. Te vi sentir por outro o que muitas vezes senti por outras e, entristeço-me agora, só por saber que não sou o único que sente-se estranho na presença de algo que nunca tivemos.
Te vi. Tive? Tenho pena... De ti? Detive meu desejo de te ter outra vez e apenas. Por um segundo e apenas. Por um momento e apenas. Pela eternidade e apenas... Gravado nessa poucas palavras, jaz um morto sentimento. Uma confusa sensação de liberdade e de prisão. Uma convulsa sensação de ódio e amor, similar ao que nunca existiu entre nós dois.Uma maldita distorção no que um dia resultou de uma união inexistente...
Vi teu sorriso bem próximo ao meu rosto. Vi teu sorriso bem próximo ao meu próprio sorriso, mas na realidade, o que eu queria não era ver sorriso nenhum, ou qualquer outra expressão que pudesse vir de tua branca e augusta face. Beijei teu rosto, querendo na verdade, arrancar este pobre sorriso de teus lábios, escondendo teus dentes com minha podre carne, com a podre carne que compõe a fenda etérea com a qual faço o profano, com a podre fenda que sacia meus desejos carnais.
Beijei teu rosto querendo beijar tuas lágrimas. Beijei teu rosto querendo beijar tuas lástimas. Beijei teu rosto querendo, outra vez, beijar teus lábios.” – C. J. Amorim (19/12/11)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sorria

Sorria, ele dizia, com o canivete na mão,
E tire de tua face este espanto, este terror
Não posso te ajudar se tens por mim certo horror.
Sorria para que eu veja se posso te ajudar ou não.

Não chores, não derrames, tuas lágrimas de dor,
Não molhe tua beleza, não faça jus à razão,
Não há causa para tanto, não fira teu coração,
Não manche esta lâmina pura com tuas injúrias de amor

Não mais creias no sério e não se deixe levar
Não venha me reprimir. Eu tentei te avisar
Que minha insânia insone poderia, talvez, te ferir.

Mas a tua traição era algo que eu não esperava
E enquanto pedias perdão, ao mesmo tempo eu chorava
Pensando em, com esta lâmina, fazer teu rosto sorrir.
                                                                                              Um Fauno (15/12/11)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Jornada

Onde estivera
Por este tempo todo?
Procurei por todas as partes
Procurei por todas as tardes
Procurei em todas as tardes
Partes...
E me deixa sozinho a esperar
Partes...
De um todo que nunca irá se completar
Que nunca mais irá me complementar.

A procura incessante, toca
Estoca minhas vontades não-absolutas.
As vontades secundárias.
Retocam a maquiagem e reaparecem
Mostrando que essa busca incessante não é primordial
Não é tudo
É apenas outra busca
Frustrada...
Incessante busca por nada
Por quem nada e nunca chega na costa...

Encosta em minhas costas
Retorna e esquece as propostas
Feitas por quem cravaram punhais em nossas costas.
Repostas
Nunca serão achadas em buscas sem propósitos
Sem propostas
Indispostas
Devotas de alguém que nos deu as costas
De um Deus moldado por revoltas
Senhor de um passado sem volta...

Onde estivera?
Que não quis mais escutar minhas respostas?
Por que dera as costas
Às propostas de um Deus idiota?
Senhor de uma resposta sem pergunta
Senhor de um tempo que retorna
Da incessante busca por si mesmo
Encontrada no início da busca.
Estivera aqui o tempo todo
E nenhum devoto viu...

Estivera onde nunca estivera
Fui e foste. Retornei e não retornara.
Encontrei. Encontrara?
Encontraste o que buscava?
Em contraste ao que buscava?
Em contraste, quem buscava
Passado de quem foi, o início
Passado de quem foi, a geração
Gerada a resposta na busca primordial
Buscava o que sempre tivera, o nada.
                                                                                              Um Fauno (14/12/11)

domingo, 11 de dezembro de 2011

Sem Perceber

"Abstenho-me do meu direito de falar, poupando assim minha preciosa saliva. Parece-me uma forma importante para saciar ou pelo menos aliviar a sede, pois a água que me dão já não está fazendo tanto efeito e percebi que preciso de algo que venha de mim para aliviar meus desejos e não o que meu círculo próximo anda me oferecendo. Me jogam para baixo sem perceber...
Abstenho-me do meu desejo de tocar-te, pois vi que você nada mais quer comigo. Parece-me uma forma digna de manter-te salva. Nossos corpos sequer se tocaram e tramam boatos de descendência entre um mendigo e uma nobre dama. Boatos espalhados por meu círculo próximo, por quem eu quero por perto. Me fazem de monstro sem perceber...
Abstenho-me do meu direito de locomoção, para poupar meus membros fracos de todo ou qualquer movimento, necessário ou desnecessário. Inerte, talvez meu corpo volte ao normal e não mais entre em colapso. Talvez com meu corpo parado, minha mente possa se locomover com mais facilidade e viaje em busca da resposta para todos meus problemas. Fui boneco, fui brinquedo, totalmente inconsciente, por outros inconscientes também. Me fazem de marionete sem perceber...
Abstenho-me do meu direito de pensar, pois minha loucura está se agravado com as tantas imagens que brincam de ciranda com meus neurônios. Já não sei se sou um Deus ou só mais um cara de sorte, já não sei se um dia estive são. A realidade se confunde com meus pulsos e anseios, e se mostra mais confusa e mais cruel que um dia eu fui. Um mundo cruel feito para os bondosos, onde esse cruel é sempre um estrangeiro. Não mais me encaixo em nenhum padrão, sou carta fora do baralho. Me fazem de coringa sem perceber...
Abstenho-me do meu direito de ser, pois uma face branca, prestes a ser modelada, é muito mais facilmente aceita nessa sociedade psicótica. Se me tornarem o que eles querem serei enfim parte de algo. Não mais pensarei por mim mesmo, não mais terei a mente livre. Não mais falarei coisas novas, serei arauto do mesmo. Não mais me moverei em prol do novo, não mais buscarei evoluir, não mais crescerei. Me tornarei um vegetal, sem perceber...
Abstenho-me do meu direito de crescer, pois assim terei, quem sabe, paz. Sem pensar, falar ou mesmo me locomover, me trancarei em mim mesmo, em minha caverna mental, para ir atrás de soluções para meus problemas carnais e emocionais. Minha língua se contorce para falar mais um paradoxo, mas domino essa vil vontade para poupar-me da dor de ser outra vez rechaçado. Meu músculo sonoro também já não é mais o mesmo. Coça, arde e dói, por falhas na saúde ocasionadas por uma razão desconhecida. Talvez eu devesse cuidar mais de mim, de minha saúde corporal e mental, ao invés de tentar agradar aos outros. Talvez eu devesse ser menos eu para ser eu mesmo novamente. Me tornarei desumano, sem perceber...
Abstenho-me do meu direito de ver, de ser visionário, de procurar o novo e o de novo. Sem pensar no que ocorre ao meu redor, focarei minha ânsia em encontrar a saída desse labirinto mental. Me tornarei, outra vez, lúcido e deixarei de ser apenas lúdico. Deixarei o pensamento de lado e mentalizarei a chave dessa cela ferina. Espalharei o pulso ao corpo e serão sinapses espasmódicas. Me levantarei só mais uma vez, para anunciar minha cura. E não mais esse mundo me afetará. E não mais afetarei esse mundo. E não mais serei um feto fétido e sim um homem completo, que terá como lema o abandono das causas vazias. Não mais buscarei quem não me busca. Não mais me violarei ou martirizarei em prol do bem estar do outro e, se um dia eu voltar a causar mal a mim, será por minha própria vontade. Será porque eu estava necessitando de um pouco de enfermidade. Me tornarei completo, por ter mais percepção." - C. J. Amorim (11/12/11)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Dependência e Condição

Consciência é sentimento suprimido
Que me traz recordações do que não lembro
A voz que torna meu suplício assistido
Como um vácuo, um espetáculo em dezembro

No frio dezembro, mais um tolo nascimento
O dia nove é marcado em calendários
E todo ano, esse dezembro é meu tormento
E meu cinismo em ser, se torna enfim diário

E meu diário vai se enchendo de mentiras
De tramas céticas, calúnias proferidas
Escritas tortas, deste escriba em parvas piras
De larvas mortas, destas chamas consumidas

Sinto vontade de negar todo meu asco
Mas sinto pena, por um dia abandoná-lo
Minha ansiedade por memórias, um fiasco
De minhas peças, mascaradas, vão abalo

Sismicamente, meus dezembros vêm a terra
Me adormecem num umbral de negros sonhos
A consciência, o dia nove a pira encerra
Na condição de ser sem asco e, enfim, risonho
                                                                                              Um Fauno (21/11/09)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

DeMente

"Fora de mim, vi rostos. Rostos femininos, lascivos rostos. Rostos pequeninos, delicados rostos. Rostos perigosos, nocivos rostos, rosto nocivo que sabia de quem era. Mas não vi seu rosto, pois não queria vê-lo... Em preto e branco, passaram os rostos, os rostos que rondam meus dias cotidianos. Em preto e branco, fotografias giravam, passavam de uma a outra, rapidamente, e, quando era pra ser aquele fatídico rosto, aquele que decidi que quero distante, que abandonei por ser menos do que eu esperava, que me abandonou sem uma razão plausível, sem dar motivo, por um outro corpo qualquer, não o vi. Surgiu em seu lugar uma caveira vermelha, que veio em minha direção e devorou a minha visão.
Dentro da boca desta caveira maldita, as fotos se tornaram amareladas, e não mais em preto e branco eu estava vendo. Vi o passado, recente e distante todos pintados nos mesmos tons de amarelo, pelas traças que a tudo devoram. Os rostos que me marcaram, de quem um dia me teve, os rostos de quem me rodeiam... As fêmeas que marcaram minha mente, com ferro em brasa, que se fizeram presentes. Vi rostos daquelas que um dia quis ver. Vi rostos daquelas que um dia quis ter, algumas que tive, algumas que não pude tocar. Vi rostos abertos, em carne e sangue, sem perder a identidade. Sabia de quem eram os rostos, um por um...
Um rosto maquiado com uma tinta que marcou também a minha pele, um rosto que marcou a minha pele, surgira em preto e branco novamente, e os rostos começaram a mesclar-se. Olhos de uma, boca de outra. Um rosto com todos os rostos e novamente os rostos individuais. Abaixo da maquiagem, a face da inocência, olhando pra baixo, a tristeza no cenho e uma lágrima rolando por um olho apenas.
Caiu no vazio, a lágrima, único foco do momento, rolando pela lousa fria de um negror que servia de fundo pra minha visão alucinada. Caiu, no vazio e tocou o chão, um lago. Tudo tremeluziu, como ondas na água parada. Adentrei esse mundo de água, mergulhei nessa nova dimensão.
Rostos em preto e branco, desenhados por mãos habilidosas. Não eram amadores os desenhistas desses rostos. Via-os perfeitamente, seus traços se mexendo, sem se deixar desfazer, ligados por cores, por ramos coloridos. Uma árvore de rostos brancos em ramos azuis e vermelhos, descendo, subindo, brotando, vivendo...
O negro vazio tomou conta da cena e então acordei. Abri os olhos, ainda insano, abri os olhos, contrariado, querendo pro meu devaneio voltar, em vão... Foi um momento, um momento e apenas. Foi o momento, sem o qual sou apenas. Sou apenas um lúcido sonhador, às portas da percepção, debruçado no parapeito da loucura, olhando pros rostos de minha visão, almejando tocá-los, querendo tê-los, sabendo que muitos não mais terei, sabendo que muitos jamais terei, sabendo que muitos nunca perderei. Andando numa corda bamba que separa a realidade e meus tredos desejos, espero que minha insanidade torne-me outra vez o Deus que um dia fui, que viu o passado e o futuro, que viu o presente e tornou-o presente.
E um dia depois, esses rostos de terça não mais me assombravam. Nem mesmo a silhueta feminina, banhada em sangue e que antes dos rostos me visitara, tentando arrancar meu coração e levá-lo consigo pra sempre. Fechei os olhos e envolto do mesmo ideal, em quarta viajei nas profundezas de minha mente. Não era mais um Deus, mas vi-me como um anjo. Senti as asas saindo de minhas costas, nascendo negras e brancas, abraçando o mundo todo, o mundo que me cerca, o mundo em que vivo. Abri os olhos e era eu novamente. E hoje, escrevo minhas memórias. Memórias de uma madrugada alucinada, em forma de um texto de quinta." - C. J. Amorim (08/12/11)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Das Tripas, Coração

Inane em meu túmulo, eu tento dormir
Querendo esquecer-me das crises tamanhas
Quaisquer devaneios das falsas façanhas
Dos maus portadores de um triste porvir

Alegres peçonhas vêm em mim cuspir,
As moscas fiéis e suas crias estranhas,
Devoram, insanas, as minhas entranhas
Fingindo chorar, quando as vejo sorrir

Epístola fria era o meu testamento
Então carcomido e jogado no vento,
No hausto indigesto da desolação

Por ódio ao desprezo de meu pobre fado,
As larvas remontam meu corpo estragado
Fazendo das tripas, um vil coração
                                                                                              Um Fauno (25/11/09)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

In Memoriam

Enfim, foi isto que restou pra mim
Nada além do nada deixado pra trás
Abutres assolam o campo de minha mente
E cantam a canção da morte-vida
Sobre cadáveres podres, recém descobertos.
Recém nascidos das sombras, surgem os cavaleiros
Nobres templários que escoltam o rei
Rei de atos tais, qual crueldade que agora o espreita
O espreita na sombra de seus templários
A traição pela mão podre de sua própria carne, seus próprios filhos
Será seu fim, meu fim.
Agora ouço o que os abutres dizem,
Me dizem para que eu deixe eles levarem minhas lembranças
Assolam o campo de minhas memórias
Almejam deliciar o néctar de nosso amor
Amor nunca feito, jamais dito pelo mortal que vos escreve
Amor que nunca existiu, pelo menos em ambas as mentes
Em ambos os corações
Deixo que eles balbuciem as palavras de nosso amor com o mesmo mal gosto que vomitam em minhas
          [vísceras
Já não sou mais o que era antes de ti
Não sou melhor nem pior, sou passado
Fui presente, ausente,
Seria futuro, antes presente, mas,
Sou passado, comum e existente
E o que restou de mim, foram os abutres de minha própria criação
Que gritam, que berram, meu sim e meu não, mas, que não deixam morrer minhas idéias e amores.
Mas, se um dia eu morrer, me acorde para dizer adeus.
                                                                                               Um Fauno (02/06/08)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Nódoas

Querendo te esquecer, eu permaneço
Tentando, finalmente, te provar
Em teu corpo, em teu ego, me embriagar
Mas em desejo tolo eu me entorpeço

Percebo, enfim, que erro em tanto errar
Descubro finalmente que não esqueço
Por simples sentimento, um tanto avesso
Às dores que senti, que quis deixar

As nódoas que marcaram meu não-ser
Tornaram-se invisíveis, sem querer,
Reacendendo, assim, vulgar paixão

Incitam-me a tentar chegar em ti
Mentir mais uma vez que não senti
O amor por tua pessoa, que é em vão
                                                                                              Um Fauno (23/09/09)

sábado, 3 de dezembro de 2011

Delato e Previsão

Foi promovendo tuas fantasias
De fadas, faunos, deuses e gigantes,
Que embora um tanto quanto alucinantes,
Ergueu-se, e comoveu hierarquias

Com tuas previsões e profecias,
Com as vozes de teus sonhos intrigantes,
Fremia reis, ludibriava amantes
A obedecer às tuas regalias

Mas, no auge de tua vida incontestada
Serás, por tuas mãos, desmascarada
Devido a um erro tolo e infeliz

E há de morrer anônima, ignota
No aglomerado de matéria rota
Gerada em teus sonhos não febris
                                                                                               Um Fauno (09/07/09)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Eutanásia

Chorar, não consigo chorar,
Levado por causa mais forte
Eu tento conter minha tristeza.
Óbvios, nós tentamos parar.
Perdão por firmar tua morte
Assim sofres menos. Certeza.
Tua enfermidade é um pesar,
Ridícula falta de sorte.
A saudade senta à mesa.
                                                                                              Um Fauno (02/12/09)

P. S.: Escrevi esses versos devido à morte de uma de minhas cadelas, que se deu na data acima descrita. Pode-se ler seu nome na primeira letra de cada verso.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Último Relâmpago

"A chuva fria molha minha morada, meu sangue, quente, o espelho que carrego. Olho fixamente para este espelho manchado,esperando que ele me mostre o que quero ver, mas ele insiste em mostrar-me meu rosto, manchado pelas lágrimas que há pouco escorreram. Se os olhos são o espelho da alma, creio eu que as lágrimas sejam o sangue. Deixo-as rolar e cobrir minha face toda. Coberto por este véu d'água, talvez consiga enxergar o que quero ver. Mas o sangue que corre na alma, já não é suficiente para alimentar meu peito.
Queria ver a razão de minha tristeza, a razão de meu sofrer. Há tanto tempo sofro e não mais me lembro o que me levou a tudo isso. Talvez seja apenas uma besteira minha... Outro trovão, este foi mais forte que o anterior... Será que um dia parará de chover por aqui? Chove lá fora, chove aqui dentro, tanto chuva quanto sangue... Se eu tentasse reerguer as paredes deste recinto, talvez me incomodasse menos com a chuva... O vento açoita meu corpo seminu e me leva a crer que em breve adoecerei novamente, se é que terei tempo para adoecer. Pelo menos desta vez a doença será apenas corporal...
Olho para meus punhos dilacerados, cobertos por um vermelho pulsante, vermelho que logo deixará de fluir. Escrevo umas poucas palavras no espelho, tentando dar sentido às suas manchas, tentando dar sentido a essa chuva de lágrimas. Mas essas palavras nunca serão lidas por ninguém. Ninguém dá atenção às palavras de um mero indigente.
Há muito que ninguém me dá atenção. Morrerei da mesma forma que nasci, anônimo, e nada sairá em nenhum noticiário, nenhuma manchete em nenhum jornal. O esquecimento é mais cruel que qualquer dor. Tantos queriam estar em minha pele no passado, mas agora, não sou mais nada. Meus vícios e erros me trouxeram pra este lugar, me trouxeram a este beco imundo e mal iluminado. Se ao menos as paredes estivessem intactas, eu poderia considerar isso como um lar, mas as paredes desse beco estão idênticas às de meu coração: derrubadas. Os escombros desta pessoa em breve serão parte dos escombros deste lugar e se tornarão apenas mais um objeto na paisagem.
Agradeço apenas à pessoa que um dia quis livrar-se deste espelho, este que seguro com minhas mãos lavadas de sangue, este que fiz arma, para cortar minhas veias rotas. Agradeço apenas por ver meu rosto imundo e meu sorriso fracassado novamente. Do chão ao ápice e depois de volta ao chão. C'est la vie... Agradeço por depois de tanto tempo poder ver o que me tornei.
Outro relâmpago, não gosto deles. Me lembram algumas luzes que tanto amei, luzes pelas quais lutei. Sim, fui um astro, uma estrela! Mas, hoje em dia, não sei ao certo se sou uma estrela cadente ou uma supernova prestes a explodir. Só meu fim poderá dizer o que realmente me tornei. Apagou-se, o relâmpago. Pelo menos um momento de paz, a sós com meu próprio ego, revendo meu próprio rosto. Queria ter a chance de mudar algumas coisas que já não mais me parecem sensatas, coisas que me trouxeram até aqui, mas já não há mais tempo. Meu sangue corpóreo já não flui com tanto vigor e o único sangue que resta é este que brota de meus olhos, acompanhado pelos soluços inaudíveis de algo que parece um homem.
O último relâmpago se apagou. Tenho certeza que quando as luzes se acenderem novamente, já não mais estarei vivo e que o que restará neste beco imundo serão apenas lembranças de um antigo ícone e um espelho autografado com dizeres de adeus." - C. J. Amorim (01/12/11)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Vende-se

Quebra-cabeças completo,
Com formato do que um dia foi um coração.
Perfeito estado,
Exceto por algumas manchas e nomes que não consegui apagar.
Preço camarada,
Pois já não vale mais tanto assim...
Único dono. Tratar com:
                                                                                              Um Fauno (10/11/11)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Das Tristezas, Cicatrizes

Estava triste, então, me olhei no espelho
E vi o que não via há muito tempo
Um rosto inerte, de olhar perdido e vasto
De séria expressão
Medonho rosto.
Revi as cicatrizes que me olhavam
Tão sérias como um torpe movimento
Com a ponta de um punhal mal afiado
Mexi nos fios deixados na sutura
E abri-as, como abro uma gaveta
Dum escritório abandonado
Esquecido.
A dor me acordava pouco a pouco
E fiz das cicatrizes, meus desejos
E fiz de meus desejos, cicatrizes
E fiz de minha culpa, cicatrizes
E fiz de minha angústia, cicatrizes
E fiz mais cicatrizes.
O sangue misturava-se ao ódio
Que escapou de todos cortes
Abertos
E os olhos que me olhavam no espelho
Choraram sobre o corpo e o punhal
Choravam, mas não por dor
Mas não por ódio
Porque queriam ver, mas não podiam
Pois sangue não brotava
Destes olhos
E sim das cicatrizes
Choravam de inveja deste sangue.
E o punhal
Que fez de minhas tristezas, cicatrizes
Foi esquecido em meu escritório esquecido.
Eu sou meu escritório esquecido
Eu sou este punhal mal afiado
Esta sutura aberta, sou meus olhos
O sangue que eu chorava, sou meu erro
A inveja não sou eu, é só memória
Dessa tristeza boba que me afunda
Dessa bobeira toda que me inunda
As dores,
Que me fizeram ver minhas cicatrizes
Que me deixaram ser minhas cicatrizes
Que me inundam de ódio e tristeza
Que me acordaram da torpe besteira
Que me entristecem, que me denunciam
Que me fazem sangrar.
Os olhos do punhal que me fitavam deixaram renascer as cicatrizes
Não me deixaram ver minhas cicatrizes
E tudo escureceu e vi meus erros.
Estava triste, então, me olhei no espelho
E vi a novidade dessa angústia
Estava triste, então, me olhei no espelho
E vi que essa tristeza era eu.
                                                                                              Um Fauno (10/07/09)